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Maria Carolina Trevisan

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Quem são as mulheres negras brasileiras reverenciadas por Angela Davis

Maria Carolina Trevisan

24/10/2019 04h00

Sueli Carneiro / Foto: Christian Braga/Divulgação

A primeira vez em que a filósofa e ativista negra Angela Davis esteve no Brasil foi em 1997. Ela visitou a Bahia e participou de um encontro em São Luis do Maranhão, que celebrava o legado de Lélia Gonzalez, uma das mais importantes referências do movimento de mulheres negras brasileiro. Naquela visita, Davis deu entrevista a uma emissora de televisão, notabilizando um raro momento em que mulheres negras foram presença na mídia eletrônica. Vinte e dois anos depois da primeira visita da ativista ao Brasil, 15 mil pessoas se reuniram no parque Ibirapuera, em São Paulo, para escutar Angela Davis. E ela esteve nos principais jornais do país.

Isso não aconteceu de maneira espontânea. Para chegarmos até aqui, com todas as conquistas das ações afirmativas, o número crescente de negros que acessam o ensino superior, a maior participação da população negra na política, na ciência, na cultura e na academia, um Estatuto da Igualdade Racial, a lei de racismo, os direitos trabalhistas conquistados, a mobilidade social alcançada por negros e negras, houve muita luta e perseverança e um movimento negro forte e atuante. As grandes líderes desses avanços são as mulheres negras brasileiras. Desde a escravidão.

Angela Davis lembrou dessas mulheres em sua estada no Brasil. Fez um chamado à necessidade de conhecer e reverenciar nossas mais velhas e nossas ancestrais, que abriram os caminhos para maior justiça racial e social no Brasil e têm vasta produção intelectual. "Nós, nos Estados Unidos, necessitamos ter acesso a essas escritas, ideias e práticas que constituem o feminismo negro brasileiro muito mais do que vocês necessitam de nossas referências", afirmou Angela, aplaudida. Ela citou grandes nomes como a antropóloga Lélia Gonzalez, a filósofa e doutora em educação Sueli Carneiro, a socióloga Vilma Reis, a escritora Conceição Evaristo, a ialorixá Mãe Stella de Oxóssi, a socióloga Ângela Figueiredo e a vereadora Marielle Franco, entre outras.

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Angela Davis / Foto: Rogério Vieira

O Brasil foi o maior território escravocrata do hemisfério ocidental, recebeu cerca de 5 milhões de cativos africanos –40% do total de embarcados para a América– no mais longo período de exploração de escravos do mundo, que durou três séculos e meio, com todo tipo de violência, tortura e crueldade. Depois da abolição, em 1888, o país adotou políticas de controle dos corpos negros que duram até hoje, perpetuando um racismo que se molda ao tempo e ao espaço. Não é por acaso que 75% das vítimas de homicídio são negras e que a maioria das pessoas encarceradas no Brasil é negra.

Mas, na mesma medida da brutalidade que o povo negro brasileiro viveu –e vive ainda hoje– , houve e há resistência. As grandes protagonistas dessa resistência são mulheres negras. No século 17, período escravocrata, Dandara, capoeirista, guerreira negra e companheira de Zumbi dos Palmares, criava estratégias para proteger o quilombo. Ela marca o início desse movimento. Particularmente, como atuo com direitos humanos desde o início da minha carreira, há mais de 20 anos, estudo, escuto e pesquiso as mulheres citadas por Angela. Concordo com a socióloga americana Patricia Hill Collins quando ela diz que a liberdade do povo negro é a liberdade de toda a sociedade.

Em 2015, por ocasião da Marcha das Mulheres Negras, tive a oportunidade de entrevistar muitas dessas lideranças. "Certamente, nós carregamos sobre os nossos corpos um conjunto de contradições e determinações que, se superadas, são pré-requisitos para fazer deste país uma verdadeira democracia racial, com igualdade e justiça social", disse Sueli Carneiro, fundadora do Geledés – Instituto da Mulher Negra, cuja obra mais recente é a compilação de textos "Escritos de uma vida", da Pólen Livros. 

"Ser mulher negra é estar localizada estrategicamente nesse lugar de onde se tem que compreender todos os processos de exclusão, desigualdade e marginalização social. Mas é também o lugar em que pode estar a condição de libertação de todos e de todas nós", afirmou Sueli.   

Essa característica faz parte do que a Sociologia chamou de "interseccionalidade", quando se sobrepõem preconceitos de raça, gênero e classe, por exemplo. As mulheres negras enfrentam todos eles. E Lélia Gonzalez tratava dessas questões antes mesmo de existir o termo, nos anos 1980.

Maioria no Brasil

Marcha das Mulheres Negras 2015 / Foto: Vinícius Carvalho

O Brasil tem hoje a maior população negra do planeta depois da Nigéria. Desde 2008, há mais mulheres negras que brancas no país. No entanto, elas seguem na base da pirâmide social: ganham menos, têm menos acesso a direitos, estão mais sujeitas à guerra às drogas e morrem mais. De acordo com o Anuário da Violência 2019, 60% das mulheres vítimas de feminicídio são negras. Por isso, como disse Angela Davis, "no centro da luta pela humanidade está a defesa das vidas negras".

Uma das referências mais importantes do feminismo negro é a socióloga e ex-ministra da Secretaria da Igualdade Racial, Luiza Bairros, que faleceu de câncer em 2016. Luiza era dona de uma voz forte e postura potente. Encarou o desafio de ocupar os espaços de poder e auxiliou na implementação do Estatuto da Igualdade Racial. Também ajudou a desmistificar o mito da democracia racial (que impedia avanços nas políticas públicas) e foi uma das primeiras a denunciar o genocídio da juventude negra, ainda hoje vigente e se agravando. Luiza auxiliou na criação de uma política de enfrentamento desse quadro, que depois foi esvaziada pelos governos de Michel Temer e Jair Bolsonaro (PSL).

Os retrocessos preocupam, mas não freiam as mulheres negras. Antes de qualquer grupo da sociedade, elas se reorganizaram e fortaleceram a sua rede de proteção. Sabiam que os anos seguintes ao impeachment da presidente Dilma Rousseff seriam de mais violência e fortalecimento do racismo, como estamos vivenciando. Mas, do ponto em que estamos, não há mais recuo. O caminho enfrentado pelo movimento negro e de mulheres negras está pavimentado e firme.

Há 24 anos, em 1995, a primeira Marcha Zumbi contra o Racismo, pela Cidadania e pela Vida reuniu 30 mil pessoas em Brasília. Naquele momento, o movimento negro denunciava a ausência de políticas públicas para a população negra. Marcava também os 300 anos do assassinato de Zumbi dos Palmares. A primeira marcha rompeu com o mito da democracia racial e evidenciou as graves desigualdades raciais. Pela primeira vez, o Brasil reconhecia o seu racismo.

Dez anos depois, a Marcha Zumbi + 10 voltou a juntar milhares de pessoas na capital do país. Começaram aí as primeiras ações afirmativas, que culminaram nas cotas para ensino superior e no Estatuto da Igualdade Racial, entre outras conquistas. Passados mais dez anos, em 2015, veio a Marcha das Mulheres Negras, que estabeleceu as metas do movimento para os 20 anos seguintes. Entre elas, está a necessidade de ocupar os espaços de poder, o que de fato está em andamento com, por exemplo, a eleição da deputada estadual Erica Malunguinho (PSOL-SP), primeira mulher trans negra a atuar na Assembleia Legislativa de São Paulo, ou com a projeção da prisão abusiva de Preta Ferreira, atriz e liderança do Movimento dos Sem-Teto do Centro (MSTC). Ambas foram citadas por Angela.

"A ocupação do poder político institucional eu vejo como sendo a parte central da nossa estratégia daqui para frente. Ou você faz com que essas concepções que o movimento negro construiu ao longo do tempo cheguem nas instituições através das pessoas que têm efetivamente esse tipo de interpretação e análise da sociedade brasileira, ou então você não vai muito mais adiante. Não tem mais como você pensar o país desconsiderando a população negra, que é a maioria da população. Você não estaria fazendo nada, não estaria pensando nada", me disse, na ocasião, Luiza Bairros.

Novas lideranças

O feminismo negro ganha impulso com a entrada de jovens intelectuais e novos ativistas. "Boa parte da nova geração do feminismo negro brasileiro é muito influenciada pelas ações afirmativas, pelo crescimento da participação das mulheres negras nas universidades brasileiras e a ampliação do debate sobre raça e gênero na esfera pública. Mas não haveria essa situação sem a forte atuação do histórico movimento de mulheres negras brasileiro, criado por Sueli Carneiro, Luiza Bairros, Jurema Werneck, Lélia Gonzalez. Essa trajetória é muito importante", explica a socióloga negra Marcia Lima, professora de relações raciais da USP.

"É muito necessário que essa nova geração do feminismo se debruce na leitura e no conhecimento dessas mulheres negras brasileiras e de sua produção. Nós temos o nosso pensamento negro feminista. O feminismo negro contemporâneo é reavivado pelo papel histórico das mulheres negras brasileiras", afirma. Bebem dessas fontes, mulheres atuantes, de trajetórias e produções relevantes como Juliana Borges, escritora, feminista e pesquisadora sobre justiça e abolicionismo penal; Ana Luiza Flauzina, doutora em direito, pós doutora pela Universidade do Texas e professora da faculdade de educação da Universidade Federal da Bahia (UFBA); Djamila Ribeiro, filósofa, pesquisadora e feminista; Bianca Santana, escritora e jornalista; e Tricia Calmon, cientista social especializada em políticas públicas de gênero e raça. 

Tricia, hoje com 35 anos, chegou a Salvador (ela é de Santo Amaro, no Recôncavo Baiano) ainda adolescente e foi estudar em escola pública. "Eu ia atrás de ouvir muito. Pude escutar Luiza Bairros, uma figura enorme, um exemplo de inteligência, de compreensão histórica, de responsabilidade, uma reserva moral tremenda. Conversei e chamei para as atividades juvenis a Makota Valdina [educadora anciã que faleceu em março de 2019]. A gente não tinha recursos e ela foi de ônibus nos encontrar. Convidamos, mais de uma vez, a Vilma Reis, uma figura única do movimento negro, que deu o seu melhor. A presença e a forma comprometida como elas se colocaram foram, por si só, uma aula que eu nunca esqueci", lembra Tricia. Ela cita também a presença de outras lideranças, que não tinham retorno financeiro ou conforto, fazendo lembrar que o movimento de mulheres negras é, sobretudo, coletivo, como também qualificou Angela Davis.

"Com o passar do tempo, tive a oportunidade de ir construindo uma relação com essas pessoas. Eu era aprendiz mas também havia companheirismo e luta. A forma como essas mulheres se colocam na luta e não subestimam o racismo é algo que não é fácil de perceber apenas ouvindo. Mas na convivência, a cada atitude, a cada tomada de decisão, a gente, que é de uma outra geração, começa a perceber que o desafio está muito além do que parece. Sobretudo pela insistência, persistência e inovação que elas vêm construindo ao longo da história, na forma de lidar com o fenômeno do racismo mas também nos dando mensagens de esperança", afirma. Lidar diariamente com o racismo, ver retrocessos acometendo a sociedade, testemunhar a perda de vidas negras pode abalar qualquer um. Por isso, a importância do coletivo.

"Em muitos momentos em que eu senti algum princípio de desesperança, quando novamente as escutava, não me sentia no direito de recuar. Elas nos inspiram, não somente pela fala bonita e qualificada, mas pela atitude e pela presença." Essa característica talvez seja o que Angela Davis chamou de "joy", que é realizar tudo isso com alegria, beleza e persistência. A experiência coletiva de felicidade. Contra o racismo, o sexismo e outras formas de opressão das mulheres negras, não há descanso. Essas lideranças abrem trincheiras a cada dia. Reverenciar suas histórias é o combustível que movimenta toda essa força.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Maria Carolina Trevisan, 40, é jornalista especializada na cobertura de direitos humanos, políticas públicas sociais e democracia. Foi repórter especial da Revista Brasileiros, colaborou para IstoÉ, Época, Folha de S. Paulo, Estadão, Trip e Marie Claire. Trabalhou em regiões de extrema pobreza por quase 10 anos e estuda desigualdades raciais há oito anos. Coordena a área de comunicação do projeto Memória Massacre Carandiru e é pesquisadora da Associação Nacional de Direitos Humanos, Pesquisa e Pós Graduação. É coordenadora de projetos da Andi - Comunicação e Direitos. Em 2015, recebeu o diploma de Jornalista Amiga da Criança por sua trajetória com os direitos da infância.

Sobre o blog

Reflexões e análises sobre questões ligadas aos direitos humanos: violência, polícia, prisão, acesso a direitos, desigualdades, violações, racismo, sistema de Justiça e política.

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