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Fernando Holiday desdenha de Marielle: é difícil entender importância dela?

Maria Carolina Trevisan

30/01/2020 09h53

A vereadora assassinada Marielle Franco – Imagem: reprodução

O vereador Fernando Holiday (MBL-SP), nesta terça (28), achou por bem protestar contra a homenagem da Prefeitura de São Paulo à defensora de direitos humanos e vereadora do PSOL-RJ Marielle Franco, assassinada a tiros no Rio de Janeiro, em 14 de março de 2018, junto de seu motorista, Anderson Gomes. Passados 687 dias, ainda não se sabe quem mandou matar Marielle.

Holiday, 23 anos, acrescentou ainda, do alto de sua experiência, uma opinião sobre o trabalho da vereadora. "Não acho que Marielle foi uma boa vereadora", escreveu em sua conta no Twitter. "O que aconteceu com ela foi terrível, mas não apaga a podridão das ideias que defendia", completou, se referindo à defesa da legalização do aborto, de ditaduras (?) e do fim da Polícia Militar. "Marielle e o PSOL exploraram os mais pobres para promover políticas desumanas e abomináveis", apelou, em resposta à irmã de Marielle, Anielle Franco, 35 anos. 

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Deve ser mesmo difícil para Holiday compreender a grandeza da atuação de Marielle. Ela não estava preocupada em polemizar, em aparecer. Atuava nas favelas, diretamente com mulheres negras, com saúde da mulher, gravidez na adolescência, envolvida com questões LGBTI, na defesa dos direitos humanos, contra a violência policial nas comunidades — o que hoje bate todos os recordes. Trabalhava pelo povo negro, pelo povo pobre do Rio. Talvez por isso, Holiday (e tantos outros) alegue que não a conhecia antes do crime que tirou sua vida de maneira tão violenta.

Holiday não pratica esse tipo de política, acha que "economizou milhões". Também não se informa muito bem: Marielle foi a quinta vereadora mais votada no Rio, era, naquele momento, conhecida por milhares de pessoas que deram a ela seu voto e confiança. O vereador paulista foi o 13º mais votado. É também o mais jovem que a capital de São Paulo já elegeu.

Falta maturidade. Por isso, soberba não deveria ser seu jeito de se posicionar. Quem está começando tem que ter a humildade de compreender os contextos, as complexidades, o funcionamento da Câmara Municipal. Precisa ouvir muito, observar. Ser sensível à dor alheia. O projeto de lei mais recente do vereador é nomear a ligação viária entre os bairros de Pirituba e Lapa como Antonio Augusto Morais Liberato, nome completo do Gugu, apresentador que faleceu em novembro passado. Seria uma justa homenagem, sim. Menos simbólica, no entanto.

O que Holiday insiste em negar é que Marielle ganhou dimensão mundial. Em Paris, por exemplo, tem um jardim com seu nome. Ela significa tudo pelo que lutava e muito mais. Porque Marielle genuinamente defendeu a parcela da população mais excluída, mais vulnerável à violência letal, à pobreza, ao tráfico e às milícias. É preciso muita coragem para atuar nessa linha de frente.

Holiday tem usado seu cargo para criminalizar os movimentos de moradia, que ele chamou de "movimentos criminosos que muitas vezes exploram a população mais pobre", no PL 0715/2019. A ideia do vereador é que o município cuide dos edifícios abandonados da cidade e "tome medidas para garantir a segurança e higiene do imóvel e das áreas no entorno". Ou seja, prefere investir dinheiro público para guardar prédios vazios enquanto gente sem teto e sem condições de bancar um aluguel deve ficar afastada.

Em outro projeto de lei (0714/2019) o vereador propõe "facilitar a apreensão de equipamentos de som que, usados de forma ilegal, criem perturbações sonoras", claramente uma ofensiva contra os bailes funk. "O que proponho é que a própria GCM ou a Polícia Militar (por meio de convênio do município com o estado) possa fiscalizar as perturbações sonoras, independentemente do uso de aparelhos de medição, e realizar a apreensão das caixas de som." O vereador Holiday ignora a violência policial nas favelas, assim como despreza a falta de acesso à cultura e ao lazer para os jovens de baixa renda da capital paulista.

É também revelador das intenções de Holiday o PL 0352/2019, que trata da questão do aborto. O vereador começa a defesa do projeto de lei citando uma frase que ele afirma ter sido dita pelo ex-presidente dos Estados Unidos Ronald Reagan, reconhecido por sua política econômica ultraliberal. Trata-se de um clichê: "eu percebi que todo mundo que é favorável ao aborto já nasceu". O vereador de São Paulo propõe – apenas – que o direito ao aborto de mulheres vítimas de estupro seja substituído por apoio psicológico e acompanhamento durante a gravidez. Em sua proposta, só teria direito de praticar o aborto na rede municipal de saúde, as mulheres que conseguirem obter alvará judicial. "E, mesmo assim, garante-se ao município o direito de interpor os recursos processuais cabíveis. Garante-se à gestante vítima de violência sexual o atendimento psicológico para aliviar o trauma e garantir que a gestação não significará contato com o criminoso. O projeto também prevê que a gestante ou sua família tenham ciência dos sinais vitais do feto e das técnicas de abortamento, a fim de dissuadi-los da prática." Uma ideia sinistra, que desconsidera a mulher enquanto sujeito.

Nesta quarta (29), a irmã de Marielle, Anielle Franco, respondeu a Holiday. "Caro Fernando Holiday, as ideias e o legado que Marielle deixou para as próximas gerações são muito maiores do que você ou qualquer debate ideológico que queira travar em suas redes para ganhar audiência." Anielle é diretora do Instituto Marielle Franco, criado pela família da vereadora para buscar justiça, defender sua memória e seu legado. "Quando a lógica econômica e de segurança para a qual você trabalha for capaz de acabar com as desigualdades e melhorar a vida das pessoas mais pobres você me chama aqui", rebateu Anielle.

Ela pede o mínimo. "Tenha mais empatia para com as pessoas. É gratuito e nem precisa ser vereador pra isso!", escreveu. Não é só humanidade que falta a Holiday. Falta também respeito à memória de Marielle e à sua família, que segue cultivando a enorme dor de perder uma filha, uma mãe, uma irmã, uma companheira. Que não sabe até hoje quem quis matá-la. Além disso, ela era uma autoridade como ele. Holiday deveria ter a decência de defender a liberdade de um vereador atuar.

São 697 dias sem ela. Quiseram calar Marielle. Mas sua voz ecoa em todos os cantos, para sempre.

Sobre a autora

Maria Carolina Trevisan, 40, é jornalista especializada na cobertura de direitos humanos, políticas públicas sociais e democracia. Foi repórter especial da Revista Brasileiros, colaborou para IstoÉ, Época, Folha de S. Paulo, Estadão, Trip e Marie Claire. Trabalhou em regiões de extrema pobreza por quase 10 anos e estuda desigualdades raciais há oito anos. Coordena a área de comunicação do projeto Memória Massacre Carandiru e é pesquisadora da Associação Nacional de Direitos Humanos, Pesquisa e Pós Graduação. É coordenadora de projetos da Andi - Comunicação e Direitos. Em 2015, recebeu o diploma de Jornalista Amiga da Criança por sua trajetória com os direitos da infância.

Sobre o blog

Reflexões e análises sobre questões ligadas aos direitos humanos: violência, polícia, prisão, acesso a direitos, desigualdades, violações, racismo, sistema de Justiça e política.

Maria Carolina Trevisan