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Ele avisou no Facebook que acabaria com a vida dela. E a matou

Maria Carolina Trevisan

10/01/2020 04h00

Foto: Arquivo/Fernando Frazão/Agência Brasil

Além da triste perda da vida de uma mulher de forma brutal, há dois aspectos importantes no fato de um homem ter avisado pelo Facebook que cometeria feminicídio: a busca por notoriedade para justificar o crime violento e o papel das redes sociais ao amplificar essa violência.

No post, o homem de 40 anos deprecia e humilha Camilla Rodrigues Barros, 29, sua ex-namorada, para em seguida matá-la e cometer suicídio. No texto, coloca-se como injustiçado e ela como ingrata. A cada linha, no entanto, ele evidencia sua personalidade abusiva, machista e agressora. Ele a matou porque ela não mais lhe "pertencia". E, se não poderia ser dele, não seria de mais ninguém.

É o pensamento clássico do feminicida. "Decidi que, se eu fosse tirar minha vida, levaria a dela junto", escreveu. Foi um crime premeditado. Ele foi frio e calculista. Segundo a família de Camila, ele a perseguia e ameaçava. Na rede social, queria o aval moral e social para defender sua honra. Deslocou o lugar de vítima –que obviamente é de Camilla–para ele mesmo.

Uma atitude dessas só encontra eco em uma sociedade estruturalmente machista. E foi o que aconteceu. Muitos dos comentários no post concordavam com o assassino e desqualificavam a vítima. É chocante e assustador. A família de Camilla, em uma situação absolutamente cruel e desumana, tem tido que desmentir a narrativa criada por ele para defender sua memória. Como se não bastasse a enorme dor da perda, seus parentes estão sofrendo essa nova violência.

Impossível não se colocar no lugar dessa mãe, a Claudia, e não se solidarizar com ela. "Deixem ela seguir em paz, por favor", pede sua única irmã Dayanne, em um post firme, que mostra a complexidade da situação que Camilla estava vivendo.

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Ao escrever o post, o agressor sabia que ganharia audiência e reforço em sua narrativa. É justamente esse "prestígio" que ele estava buscando. Sabia que viraria notícia. Há, na postagem dele, uma necessidade de plateia e de aplauso. Por isso, não publicaremos sua carta aqui. A cobertura jornalística de casos como esse precisa considerar a demanda por fama do agressor. E não pode se prestar a ser um canal sensacionalista, que destrói a memória da vítima, exalta a voz do assassino e incentiva a violência. Não vale tudo por audiência. Ao mesmo tempo, é dever do jornalismo endereçar essa questão e ampliar o debate em torno da violência contra a mulher.

O que o ex-namorado de Camilla fez é similar ao desejo por reconhecimento e prestígio que move os assassinos que cometem massacres em escolas, por exemplo. É uma questão tão séria que gerou uma campanha chamada "No notoriety" (Não notoriedade), que orienta jornalistas a não dar nome, foto ou expor mensagens deixadas por essas pessoas. Nesses casos, a vontade de se tornar celebridade é um fator comum que estimula assassinos em massa. A campanha se refere a veículos de imprensa. Mas como as redes sociais entram nessa dinâmica? É possível a rede social interceder em casos como o de Camilla?

Redes sociais e a disseminação da violência

Não foi só o assassinato de Camilla que teve anúncio pelo Facebook. Uma reportagem da Folha, publicada no domingo (5), revelou uma situação gravíssima: facções do Ceará decretam, via Facebook, o assassinato de determinadas meninas. "Todas [as facções] divulgam decretações nas redes sociais, principalmente no Facebook, por meio de perfis anônimos. As ameaças às garotas são mais frequentes e vêm acompanhadas de xingamentos que não se aplicariam a homens: marmitinha, vagabunda, safada, pirangueira. Algumas postagens indicam que a morte deve ser 'sem massagem', o que significa acrescentar tortura. Seus corpos são expostos antes e depois", afirma a reportagem de Thaiza Pauluze. Embora sejam de naturezas diferentes, é impossível ignorar a perspectiva de gênero que envolve ambas as situações.

A reportagem apurou que o Facebook tem mecanismos para interferir quando há perigo iminente, tanto para casos que envolvem o crime organizado quanto para circunstâncias que abrangem suicídio e violência contra a mulher. Mas, para Camilla, essas abordagens não foram suficientes. Algo falhou.

Qual é o limite para postagens em redes sociais? Como controlar? Como acompanhar as mudanças de dinâmicas e tecnologias? Enquanto o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ameaça via Twitter bombardear outro país "sem hesitação", caso bases americanas sejam atacadas, no Brasil, o presidente Jair Bolsonaro usa as redes sociais como Facebook e Twitter para, entre outras questões, ofender a imprensa e disseminar o ódio.

Questionado por não ter detectado os perigos descritos nas reportagens, o Facebook respondeu:

Sobre os homicídios no Ceará: "Os conteúdos em questão violam as políticas do Facebook e os posts desta natureza são removidos, assim como as contas ligadas a eles. Temos equipes dedicadas a segurança e usamos uma combinação de denúncias da nossa comunidade, tecnologia e revisão humana para aplicar nossas políticas." — Porta-voz do Facebook.

Sobre o feminicídio de Camilla: "A segurança da comunidade do Facebook é nossa prioridade, e desenvolvemos diversas ferramentas e projetos tanto para a prevenção do suicídio e automutilação (como uma parceria com o CVV no Brasil) quanto para o combate à violência de gênero. No âmbito da segurança da mulher, desenvolvemos projetos como um bot no Messenger em parceria com as ONGs Think Olga e Nossas.Org" — Porta-voz do Facebook.

 

Sobre a autora

Maria Carolina Trevisan, 40, é jornalista especializada na cobertura de direitos humanos, políticas públicas sociais e democracia. Foi repórter especial da Revista Brasileiros, colaborou para IstoÉ, Época, Folha de S. Paulo, Estadão, Trip e Marie Claire. Trabalhou em regiões de extrema pobreza por quase 10 anos e estuda desigualdades raciais há oito anos. Coordena a área de comunicação do projeto Memória Massacre Carandiru e é pesquisadora da Associação Nacional de Direitos Humanos, Pesquisa e Pós Graduação. É coordenadora de projetos da Andi - Comunicação e Direitos. Em 2015, recebeu o diploma de Jornalista Amiga da Criança por sua trajetória com os direitos da infância.

Sobre o blog

Reflexões e análises sobre questões ligadas aos direitos humanos: violência, polícia, prisão, acesso a direitos, desigualdades, violações, racismo, sistema de Justiça e política.

Maria Carolina Trevisan