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Violência doméstica: caso do goleiro Jean mostra o sofrimento das crianças

Maria Carolina Trevisan

19/12/2019 13h32

A violência doméstica funciona como a onda que se forma na água quando atiramos uma pedra: não atinge apenas o epicentro, mas se irradia para todos os membros da família e para a comunidade, perpetuando-se entre gerações. Reflete-se em todas as relações dos familiares, testemunhas das agressões entre paredes. Para as crianças de lares violentos, no lugar onde deveria haver afeto e acolhimento, há um buraco em que o medo é o principal ator.

Na madrugada do último sábado (14), um menino de 11 anos telefonou ao serviço da Polícia Militar do Mato Grosso, em Cuiabá, para pedir ajuda e salvar a mãe, que estava sendo esfaqueada pelo pai. A denúncia levou à prisão em flagrante de Carlos Fernando da Silva, 38 anos. Ele permanece em prisão preventiva pela tentativa de homicídio. "Por favor, me ajuda", dizia o pequeno, em desespero. "Tenho 11 anos, meu Deus do céu. Vou ficar aqui na frente esperando." Quando a polícia chegou, as três crianças estavam escondidas atrás do sofá.

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Em outro caso, nesta quarta (18), Milena Bemfica denunciou as agressões cometidas pelo goleiro Jean, do SPFC, pedindo socorro pelas redes sociais em um vídeo em que aparece machucada. "Jean acabou de me bater", dizia Milena, trancada no banheiro. Ao fundo, enquanto o marido falava "você vai fazer isso com suas filhas?", era possível escutar a voz fina das crianças, que também chamavam pela mãe.

Em um comportamento típico de homens agressores, Jean ameaçou Milena por mensagem, dizendo "suas filhas vão passar fome". Por esse tipo de chantagem é tão difícil denunciar um companheiro violento.

É preciso mais que coragem. É necessário ter certeza de que há uma rede de proteção na qual a mulher pode se apoiar, psicológica e financeiramente, em caso de violência doméstica. O homem agressor tentará, primeiro, dizer que "isso nunca mais vai acontecer", prometerá "fazer terapia", "entrar no AA" e "melhorar". Dará todos os tipos de agrados que puder como presentes, viagens, flores.

Se não funcionar, partirá para a chantagem usando argumentos como "vou tirar as crianças de você", para a humilhação com frases como "você não é nada sem mim" e, por fim, fará ameaças: "se você não for minha não será de mais ninguém". Esse ciclo é típico da violência doméstica, que pode chegar ao feminicídio.

Em contextos como esses, as crianças se sentem responsáveis pela vida e pela integridade física da mãe. E temem esse homem, seja o pai, o ex-marido ou o novo companheiro dela. Mas os pequenos não têm como enfrentar tamanho drama sozinhos. Vão ganhando cicatrizes invisíveis. Ficam inseguros, vivem em alerta, com pavor da próxima atitude violenta. Querem crescer logo para sair dali. Não aproveitam a infância.

Tornam-se adultos receosos. Têm dificuldade em se relacionar. Os meninos podem reproduzir o comportamento do pai ou, ao contrário, acabam se tornando submissos, infelizes, calados, para evitar o atrito. Anulam-se. É como se a violência se perpetuasse para sempre. Silenciosamente, minando tudo ao redor. As meninas farão o possível para sair daquele ambiente, por isso há muitos casos de gravidez na adolescência. Quando adultas, muitas buscam se apoiar em causas feministas ou procuram tratamento para sanar essas angústias. Não antes de terem duvidado delas mesmas.

Mas as políticas públicas têm avançado. Não existe mais o "crime contra a honra" ou "crime passional" para justificar o assassinato de mulheres. Temos a Lei Maria da Penha, uma das legislações mais completas do mundo em termos de violência contra a mulher. Tipificamos o feminicídio como um agravante do homicídio, para evidenciar a violência letal contra a mulher e desenhar caminhos para enfrentar o problema.

Mas, no que diz respeito às crianças expostas a esses ambientes violentos, estamos andando para trás. Como principal espaço de convivência da infância e adolescência fora de casa, a escola teria que servir de acolhimento, de escuta. Seria importante facilitar a entrada nessa brecha em que a criança pode contar o que está acontecendo em casa. As discussões sobre gênero seriam um desses caminhos.

Mas o governo insiste em evitar a "ideologia de gênero", como se isso fosse interferir na orientação sexual de meninos e meninas. O poder público não pode se referir às crianças como príncipes e princesas quando o mundo real é cheio de tristezas –e muitas vezes elas não passam de coadjuvantes de uma vida sem alegrias, impotentes.

A ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves, que sentiu na própria carne os efeitos da violência, advoga pelo fim da "ideologia de gênero" nas escolas. Mas é nos espaços de diálogo que se consegue identificar sinais de uma criança que convive com a violência em casa. É preciso capacitar educadores para encaminhar uma questão tão complexa e ajudar as crianças. A Constituição do Brasil garante a "prioridade absoluta" a elas. A vida não é conto de fadas.

 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Maria Carolina Trevisan, 40, é jornalista especializada na cobertura de direitos humanos, políticas públicas sociais e democracia. Foi repórter especial da Revista Brasileiros, colaborou para IstoÉ, Época, Folha de S. Paulo, Estadão, Trip e Marie Claire. Trabalhou em regiões de extrema pobreza por quase 10 anos e estuda desigualdades raciais há oito anos. Coordena a área de comunicação do projeto Memória Massacre Carandiru e é pesquisadora da Associação Nacional de Direitos Humanos, Pesquisa e Pós Graduação. É coordenadora de projetos da Andi - Comunicação e Direitos. Em 2015, recebeu o diploma de Jornalista Amiga da Criança por sua trajetória com os direitos da infância.

Sobre o blog

Reflexões e análises sobre questões ligadas aos direitos humanos: violência, polícia, prisão, acesso a direitos, desigualdades, violações, racismo, sistema de Justiça e política.

Maria Carolina Trevisan