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Maria Carolina Trevisan

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Brasil cai 3 posições em ranking de liberdade de imprensa. Ódio é a causa

Maria Carolina Trevisan

18/04/2019 08h00

Presidente Jair Bolsonaro da entrevista coletiva na Base Aérea de Brasília – Rubens Valente/Folhapress

Manipulação das redes sociais e discursos de ódio são responsáveis por colocar o Brasil no 105º lugar do Ranking Mundial de Liberdade de Imprensa em 2019, três posições abaixo de 2018.

O relatório da ONG internacional Repórteres Sem Fronteiras (RSF) mostra que o país está no limite entre "situação delicada" e "situação difícil", na qual se enquadram países como Venezuela (148º), México (144º), Colômbia (129º) e Bolívia (113º).

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O México continua sendo o país do continente americano em que mais jornalistas foram assassinados, chegando a oito homicídios em 2018. O Brasil teve quatro jornalistas assassinados no mesmo ano.

O uso das redes sociais por autoridades para intimidar jornalistas é uma tendência em diversos países do mundo. Expõe profissionais da imprensa ao linchamento e à violência. Segundo o documento, "a hostilidade contra os jornalistas, e até mesmo o ódio transmitido em muitos países por lideranças políticas, resultou em atos de violência mais graves e frequentes, que aumentam os riscos e, como resultado, geram um nível de medo inédito em determinados lugares". 

No Brasil, o relatório alerta para o que pode acontecer se esse tipo de hostilidade continuar sendo praticada. "A eleição de Jair Bolsonaro em outubro de 2018, após uma campanha marcada por discursos de ódio, desinformação, ataques à imprensa e desprezo pelos direitos humanos, é um prenúncio de um período sombrio para a democracia e a liberdade de expressão no país", registra. 

Bolsonaro vem seguindo a prática do presidente Donald Trump, nos Estados Unidos (48º), que costuma atacar meios de comunicação e jornalistas em suas redes sociais. Essa postura fez com que o país também caísse três posições no ranking e fosse rebaixado para "situação difícil" (onde se enquadram países considerados problemáticos para o exercício da profissão).

Em 2018, os Estados Unidos figuravam na zona avaliada como "relativamente boa" para a liberdade de imprensa. "Os jornalistas americanos nunca haviam sido alvo de tantas ameaças de morte. Tampouco haviam recorrido a empresas privadas para garantir sua segurança. O ódio aos meios de comunicação é tanto que, em Maryland, um homem abriu fogo deliberadamente na redação do diário local de Anápolis, The Capital Gazette, deixando cinco mortos. O assassino havia compartilhado amplamente a raiva que sentia do jornal nas redes sociais", informa o documento.

"Se o debate político desliza, de forma discreta ou evidente, para uma atmosfera de guerra civil, onde os jornalistas se tornam bodes expiatórios, os modelos democráticos passam a estar em grande perigo", explica Christophe Deloire, secretário geral da RSF.

"Deter esse mecanismo do medo é absolutamente urgente para mulheres e homens de boa vontade que prezam as liberdades adquiridas ao longo da história."

O alerta vale para outros países do continente americano, que registrou a maior degradação da liberdade de imprensa no mundo. Esse resultado vai além de Estados Unidos, Brasil e Venezuela. A pior queda foi verificada na Nicarágua (114º), que perdeu 24 posições.

"Os jornalistas nicaraguenses que cobrem os protestos anti-governo Ortega, vistos como oponentes, são frequentemente agredidos. Muitos deles foram forçados ao exílio para escapar de ameaças e acusações descabidas de envolvimento com o terrorismo", diz o informe.

A impunidade dos agressores de jornalistas segue sendo um dos principais motores que fomentam a violência contra profissionais da comunicação no mundo. 

Liberdade de imprensa, liberdade de expressão e censura

"Para lincharem um repórter falta pouco", afirma a jornalista Angelina Nunes, uma das mais premiadas do país, conselheira da Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo), membro do International Consortium of Investigative Journalists (ICIJ) e professora de Jornalismo da ESPM do Rio de Janeiro.

Ela cita o caso da repórter Larissa Schmidt da TV Globo, que foi empurrada pelo prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella (PRB), ao fazer uma pergunta que o desagradou. "Eu não quero falar com você", disse o prefeito, afastando a repórter da coletiva de imprensa.

Ameaças no campo virtual também são danosas. A jornalista da Folha Patrícia Campos Mello sofreu uma avalanche de ameaças e tentativas de linchamento nas redes sociais ao denunciar que empresários bancaram envios de fake news em massa contra o PT, em outubro, na campanha presidencial.

O então candidato Jair Bolsonaro (PSL) passou a ameaçar a Folha com corte de verbas públicas e a atacar a credibilidade do jornal, dizendo que "suas informações são tendenciosas". O jornal precisou pedir proteção da Polícia Federal para a jornalista.

Outros episódios recentes envolvendo jornalistas e autoridades continuam acontecendo. É o caso da repórter do Estadão Constança Rezende, que teve sua fala distorcida por um site e publicada pelo presidente da República. Afrontar a Folha e outras empresas de comunicação se tornou prática de Bolsonaro, de seus filhos e de alguns sites e seguidores da família, como faz Trump.

"A gente já sofre ameaças de morte, agressões psicológicas e verbais por conta de algumas coberturas perigosas. Agora estamos também sofrendo ameaças virtuais que quebram a credibilidade, destroem a reputação de alguém. Aí é um dano complicadíssimo de você reparar. São tempos sombrios", afirma Angelina.

Na segunda-feira (15), a liberdade de imprensa foi ameaçada pelo próprio Supremo Tribunal Federal (STF), que ordenou a retirada de reportagem veiculada pela Revista Crusoé e pelo site O Antagonista. O texto dizia que o presidente da corte, Dias Toffoli, fora mencionado em delação premiada de Marcelo Odebrecht na Operação Lava Jato.

Em um jogo de empurra-empurra jurídico, na terça (16), a procuradora-geral, Raquel Dodge, informou que suspendeu o inquérito por entender que o Ministério Público, e não o próprio Supremo, é quem deveria decidir se dá continuidade no caso.

O ministro Alexandre de Moraes, por sua vez, entendeu que a manifestação de Dodge não tinha amparo legal, e o inquérito foi prorrogado por 90 dias.​ Seria o caso de questionar o método da Lava Jato, mas não a reportagem, que conta um fato. 

É necessário proteger o jornalista, que precisa ter liberdade de informar sem medo. Incitar o ódio contra alguém — de qualquer profissão — não deveria ser tolerado em uma sociedade de democracia saudável, que presa pelas liberdades.

Contra o ódio e as fake news que querem desacreditar o jornalismo, devolvemos um jornalismo ainda melhor. O trabalho começa nas escolas de jornalismo e não termina nunca: quanto mais apurada, precisa, checada e contextualizada for uma reportagem, mais credibilidade e força ela terá.   

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Maria Carolina Trevisan, 40, é jornalista especializada na cobertura de direitos humanos, políticas públicas sociais e democracia. Foi repórter especial da Revista Brasileiros, colaborou para IstoÉ, Época, Folha de S. Paulo, Estadão, Trip e Marie Claire. Trabalhou em regiões de extrema pobreza por quase 10 anos e estuda desigualdades raciais há oito anos. Coordena a área de comunicação do projeto Memória Massacre Carandiru e é pesquisadora da Associação Nacional de Direitos Humanos, Pesquisa e Pós Graduação. É coordenadora de projetos da Andi - Comunicação e Direitos. Em 2015, recebeu o diploma de Jornalista Amiga da Criança por sua trajetória com os direitos da infância.

Sobre o blog

Reflexões e análises sobre questões ligadas aos direitos humanos: violência, polícia, prisão, acesso a direitos, desigualdades, violações, racismo, sistema de Justiça e política.