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Maria Carolina Trevisan

Maria Carolina Trevisan

Bom jornalismo rompe "bolha", mania de ler só informação em que acreditamos

Maria Carolina Trevisan

2021-11-20T18:08:00

21/11/2018 08h00

WhatsApp propagou mentiras em massa – Foto: Danilo Verpa/Folhapress

No mar de desinformação, precisão é ouro. Com a reprodução de notícias falsas em massa graças às redes sociais e aos aplicativos de envio de mensagens, o jornalismo de qualidade tem se tornado cada vez mais relevante. Para encontrar informações verdadeiras, o público passa a buscar fontes de credibilidade, principal atributo do jornalista. Por isso, quanto mais bem apurada for uma notícia – com fontes plurais, diferentes contextos, dados, legislação, investigação – mais pertinente é o seu conteúdo.

Diante desse cenário, a função social do jornalismo ganha contornos mais robustos. Continua exercendo seu papel primordial de acompanhar e fiscalizar o poder; iluminar a escuridão em temas determinantes para a sociedade; dar espaço para cidadãos que geralmente não têm voz; agendar demandas importantes para pautar e cobrar políticas públicas; e, mais que nunca, ser um dos pilares que sustentam a democracia.

Já não basta o jornalismo corresponder ao timming imposto pela internet, não é suficiente a checagem de fatos. Se nos ativermos apenas a isso, perderemos para a desinformação em massa. É preciso aprofundar, especializar a informação, dar tratamento aos fatos para que o leitor, ouvinte ou telespectador, possa compreender do que se trata determinada notícia e saiba separar o que é a "verdade" e o que é retórica manipuladora. Não é mais aceitável buscar apenas fontes oficiais para escutar sobre certa situação. Na verdade, nunca foi. Mas agora tudo está mais entrelaçado, imbricado, e tem mais de um ou dois lados. "O melhor remédio para as chamadas fake news é voltar aos princípios básicos do jornalismo, em que os conteúdos se fundamentam na verificação da informação, com diversas fontes confiáveis, sob o espírito de serviço público e responsabilidade social", afirma Ricardo Corredor, diretor da Fundação Gabriel García Márquez para o Novo Jornalismo, da Colômbia.

No panorama político, mais que antes, o jornalista lida agora não só com as denúncias de corrupção, essenciais nessa profissão. Precisa compreender a complexidade das histórias que aborda, os diferentes interesses, tratar concomitantemente das violações de direitos oriundas dessa corrupção, das possíveis soluções e enquadrar atores responsáveis. Isso não é novidade. Mas, nesse sentido, o Judiciário tem ocupado espaço e importância. É preciso considerar que essa instituição está em evidência, ganhou superpoderes, juízes são vistos como heróis, ocupam o noticiário mais que políticos e celebridades e preenchem o vazio deixado pela descrença na política. Atualmente interferem até no que a imprensa pode ou não publicar, como no caso do inquérito sobre a execução de Marielle ou em outras tentativas de intimidação via processos judiciais e constrangimento público. É nesse cenário que estamos trabalhando.

"Fazer esse trabalho de maneira constante e sistemática, com independência e transparência, será também a base para que os meios recuperem a confiança perdida e voltem a ser uma instância com legitimidade suficiente, em que se discutam os assuntos públicos em nossas sociedades polarizadas", completa Corredor.

Vasos comunicantes

Novos tempos trazem também a necessidade de novas habilidades. "Ao mesmo tempo em que as tecnologias e a internet trouxeram uma série de desafios para o modelo de negócios que as empresas de jornalismo desenvolveram, está cada vez mais claro que o jornalismo nunca foi tão necessário para a proteção e consolidação das democracias", afirma Guilherme Canela, assessor regional de comunicação e informação da Unesco, no escritorio regional em Montevidéu, responsável pela América Latina e Caribe. Trata-se de reforçar o trabalho de pesos e contrapesos que o jornalismo exerce no jogo democrático, a partir da perspectiva de um profissional que tenha conhecimento específico para fazer leituras aprofundadas desses contextos.

Um dos grandes obstáculos para isso, neste momento, são as bolhas de informação que se criaram. As pessoas passaram a se alimentar de notícias que interessam somente a elas, interagem, recebem e confiam em informações que têm a ver só com o que elas acreditam, a partir desse único ponto de vista. "A função do jornalismo é criar vasos comunicantes entre essas bolhas, com informações que vão além de suas crenças prévias. Isso é cada vez mais necessário e, ao mesmo tempo, mais difícil de ser implementado", diz Canela.

Outra mudança significativa das campanhas presidenciais de 2018 se refere ao comportamento dos eleitores: estão mais preocupados em discutir temas que envolvem valores – como o aborto, o casamento homossexual ou a "ideologia" na escola – do que debates que dizem respeito às políticas públicas.

"Houve uma mudança do centro da discussão nas últimas eleições em várias partes do mundo. Não basta rotular o cidadão. É preciso lidar com o fato de que os valores podem ser legítimos ainda que não estejamos de acordo. Fazer jornalismo considerando isso é muito mais complexo. Demanda uma discussão intensa com a sociedade, entender como funcionam as redes e como estão se organizando", conclui Canela.

A Unesco criou um guia para ajudar jornalistas a refletirem sobre Jornalismo, Fake News e Desinformação.

Saídas

O fenômeno das fake news não é exclusividade do Brasil. Ocorre nos Estados Unidos, aconteceu no Brexit, no processo de paz na Colômbia, e tem mais força na América Latina, pelo uso intenso das redes sociais e aplicativos de compartilhamento de mensagens. Algumas ações foram tomadas pelos meios jornalísticos na tentativa de minimizar os impactos das mentiras em massa, como a checagem de fatos.

No Brasil, o Projeto Comprova uniu 24 diferentes veículos de comunicação brasileiros na tarefa de desmentir notícias falsas durante a campanha presidencial de 2018. O que se verificou nas 12 semanas em que o Comprova esteve em andamento é impressionante: das 146 notícias verificadas, 92% eram falsas. Apenas 9 eram verdadeiras. De acordo com o Relatório de Segurança Digital, publicado pelo dfndr lab (da empresa Psafe, que desenvolve aplicativos de segurança digital), no segundo trimestre de 2018, foram identificadas quase 5 milhões de notícias falsas, o que equivale a 36 detecções por minuto. 

Fonte: relatório de segurança digital do dfndr lab

Essa avalanche de conhecimentos e conteúdos faz com que os jornalistas assumam também o papel de curadores, que filtram e dão relevância às informações importantes. Mas é preciso atuar na formação dos profissionais de comunicação, oferecer competências específicas sobre a internet. "Precisamos de jornalistas de política, economia, educação, saúde, direitos humanos, que entendam o funcionamento da internet, que saibam o que é a internet profunda (deep web), que compreendam as dinâmicas dos fluxos informacionais desse mundo, a lógica dos algoritmos na cadeia informativa em todas as editorias e não apenas no caderno de tecnologia", alerta Canela. "Se houvesse um jornalismo de investigação da internet, os próprios meios do mundo inteiro saberiam antes do fenômeno da desinformação em massa."

É uma mudança que implica deixar de compreender a internet como uma ferramenta e passar a entendê-la como um ecossistema, um ator relevante no jogo político. "Esse mesmo jornalismo que nunca foi tão necessário precisa encontrar formas de colocar em evidência, por exemplo, o discurso de ódio nas redes, a agenda da diminuição da privacidade online. Entender e investigar o ecossistema da internet é um passo anterior à checagem, ao jornalismo de dados, é um jornalismo capaz de alertar a sociedade do que está debaixo da água, em vez de mostrar a ponta do iceberg e operar sobre as consequências", explica Canela.

Tudo isso coloca o jornalismo de qualidade no centro da cena outra vez. Líderes políticos vêm preferindo suas contas de Facebook e Twitter para falar diretamente com a população, o que antes era mediado por jornalistas. Esses políticos tratam questões de Estado por meio das redes sociais. O lado bom é que se tornam implicados nas Leis de Acesso à Informação dos diferentes países, sujeitos às demandas por registros e arquivos. A Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 1948, estabelece o acesso à informação pública não apenas como o direito de transmitir ou receber informações, mas também o de buscar. No entanto, algumas autoridades usam essas ferramentas para desqualificar o jornalismo. "O contato direto não justifica uma retórica mais agressiva contra o jornalismo e a imprensa em geral", afirma o oficial da Unesco.

Este momento pode ser uma oportunidade valiosa para o jornalismo se fortalecer, se voltar fortemente para a investigação, os dados, documentos e orçamentos, e resgatar sua essência. Não é uma preocupação apenas da imprensa brasileira. "Jornalista tem que combater o sistema que ameaça as liberdades. A batalha não está perdida", disse Miguel Ángel Aguilar, secretário geral da Associação de Jornalistas Europeus.

"Uma imprensa confiável é o sistema imunológico de uma democracia", afirmou Xavier Mas de Xaxàs, correspondente diplomático do jornal La Vanguardia.

Aguilar, Xaxás, esta colunista e jornalistas da Guatemala, Venezuela, El Salvador, México, Honduras, Espanha, Brasil e Colômbia estivemos reunidos nos dias 12 e 13 de novembro, em Antigua, Guatemala, para participar do 24º Fórum Eurolatinoamericano de Comunicação, uma parceria da Associação de Jornalistas Europeus com a Fundação Gabriel García Márquez para o Novo Jornalismo. Na pauta: discutir jornalismo e sua relevância para sustentar as democracias. É uma preocupação mundial. No domingo, 11 de novembro, líderes de 12 países se comprometeram com as garantias democráticas com relação à informação e à liberdade de opinião, apoiando uma declaração proposta pelos Repórteres Sem Fronteiras por meio de uma comissão independente. "Não há felicidade sem liberdade, nem liberdade sem coragem", declarou o presidente da França, Emmanuel Macron, ao se comprometer com a defesa da liberdade de expressão e de opinião.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Maria Carolina Trevisan, 40, é jornalista especializada na cobertura de direitos humanos, políticas públicas sociais e democracia. Foi repórter especial da Revista Brasileiros, colaborou para IstoÉ, Época, Folha de S. Paulo, Estadão, Trip e Marie Claire. Trabalhou em regiões de extrema pobreza por quase 10 anos e estuda desigualdades raciais há oito anos. Coordena a área de comunicação do projeto Memória Massacre Carandiru e é pesquisadora da Associação Nacional de Direitos Humanos, Pesquisa e Pós Graduação. É coordenadora de projetos da Andi - Comunicação e Direitos. Em 2015, recebeu o diploma de Jornalista Amiga da Criança por sua trajetória com os direitos da infância.

Sobre o blog

Reflexões e análises sobre questões ligadas aos direitos humanos: violência, polícia, prisão, acesso a direitos, desigualdades, violações, racismo, sistema de Justiça e política.