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Alvim extrapolou engrenagem que banaliza o mal no governo Bolsonaro

Maria Carolina Trevisan

17/01/2020 11h34

É a primeira vez que o presidente Jair Bolsonaro reage com demissão a discursos extremistas de seus ministros e secretários. O porta-voz do planalto anunciou nesta sexta-feira (17) ao Congresso a saída do secretário de Cultura do governo Bolsonaro, Roberto Alvim, depois que ele fez um pronunciamento incorporando o discurso de Joseph Goebbels, ministro da Propaganda de Hitler. O secretário negou que tivesse se inspirado no nazista Joseph Goebbels ao discursar na quinta (16) sobre o "renascimento da arte", ao som de Wagner, compositor favorito de Hitler. Disse ser essa uma interpretação da esquerda, uma "falácia de associação remota", "uma coincidência retórica". Até Olavo de Carvalho, guru dos bolsonaristas, afirmou que o secretário "talvez não esteja muito bem da cabeça". A voz e a estética do vídeo, que remetem, sim, ao ministro da Propaganda de Hitler, não inspiram sanidade.

Há duas interpretações possíveis para o anúncio de sua demissão: Bolsonaro tomou conhecimento das manifestações contra Alvim e considerou que, de fato, ele ultrapassou todas as barreiras possíveis, afinal, as maldades não podem ser tão óbvias; o presidente teria visto na inevitável demissão a oportunidade de desviar o foco de outras crises, como a denúncia recente do conflito de interesses por parte de seu secretário de Comunicação, Fabio Wajngarten. A atitude do governo, seja qual for a motivação, é importante. Uma sinalização de limites.

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A gestão de Bolsonaro é isso: crise sobre crise a fim de estancar o problema anterior. A inspiração nazista de Alvim foi exposta em seguida à denúncia de que o secretário de Comunicação, Fabio Wajngarten, estaria envolvido em uma situação óbvia de conflitos de interesse. Vem também na sequência da declaração do ministro da Educação, Abraham Weintraub, de que descartaria milhões de livros didáticos – aqueles que têm "muita coisa escrita", segundo Bolsonaro. Segue-se à ideia da ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves, de promover a abstinência sexual para controlar a gravidez na adolescência, uma política fadada ao fracasso: desinforma, constrange e não há evidências de que funcione.

É o que Hannah Arendt classifica como "A banalidade do mal", quando a sociedade passa a normalizar determinados comportamentos aparentemente sem maldade. O problema é que disso podem surgir a violência extrema e sistemática contra setores da população. Em "Eichmann em Jerusalém" (Companhia das Letras), livro-reportagem de Arendt sobre o julgamento de Eichmann, o principal responsável pelo envio de judeus aos campos de concentração, ocorrido em 1962, ela mostra que ele justificou seu comportamento como algo simplesmente burocrático, parte de sua obrigação como funcionário. Com um discurso cheio de clichês, palavras de ordens e de moral Eichmann não poderia ser julgado como criminoso, afinal, apenas cumpria seu dever. No entanto, viabilizou a morte de milhões de judeus. Para Arendt, Eichmann não era um homem mau que defendia uma ideologia. Seguia ordens sem questionar. Alvim disse que essa cópia de Goebbels seria uma interpretação da esquerda. 

Goebbels e Hitler ocuparam espaço no caos da Europa pós guerra. Cresceram no vácuo criado pelo sentimento de revanche, ressentimento, angústia e revolta. Suas técnicas de discurso são implementadas até hoje (!). "Nós não falamos para dizer alguma coisa, mas para obter um certo efeito", dizia Goebbels. O ministro da Propaganda de Hitler se suicidou no dia seguinte ao seu chefe (que tirou a própria vida em 30 de abril de 1945). Sua esposa também cometeu suicídio, depois de ambos matarem os seis filhos com cianeto.

O discurso de Alvim não pode ser considerado "normal". O mal banal descrito por Arendt é essa incapacidade de refletir, a ausência de sentimento de responsabilidade por parte do praticante, que ignora as consequências de seus atos. Como se fosse mera engrenagem de uma máquina maior, que mói gente. "2020 será o ano de uma virada histórica", prometeu Alvim, agora de saída.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Maria Carolina Trevisan, 40, é jornalista especializada na cobertura de direitos humanos, políticas públicas sociais e democracia. Foi repórter especial da Revista Brasileiros, colaborou para IstoÉ, Época, Folha de S. Paulo, Estadão, Trip e Marie Claire. Trabalhou em regiões de extrema pobreza por quase 10 anos e estuda desigualdades raciais há oito anos. Coordena a área de comunicação do projeto Memória Massacre Carandiru e é pesquisadora da Associação Nacional de Direitos Humanos, Pesquisa e Pós Graduação. É coordenadora de projetos da Andi - Comunicação e Direitos. Em 2015, recebeu o diploma de Jornalista Amiga da Criança por sua trajetória com os direitos da infância.

Sobre o blog

Reflexões e análises sobre questões ligadas aos direitos humanos: violência, polícia, prisão, acesso a direitos, desigualdades, violações, racismo, sistema de Justiça e política.

Maria Carolina Trevisan