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Maria Carolina Trevisan

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"O feminicídio é previsível e evitável. Isso é terrível", diz Patrícia Melo

Maria Carolina Trevisan

06/11/2019 04h00

A escritora Patrícia Melo lança seu novo livro "Mulheres empilhadas" nesta quarta (6), no Rio de Janeiro. Foto: Kyrhian Balmelli

A maioria dos casos de feminicídio começa com um pequeno abuso. Passa de uma corriqueira reclamação para um ciúme desmedido, o controle, as humilhações. Tudo entremeado por pedidos de perdão, promessas e seduções. Como em uma espiral, é um comportamento que vai da violência psicológica para a violência física, em um movimento que pode durar anos. É tão cruel que a mulher duvida dela mesma. De suas capacidades, de seu comportamento, de sua autonomia. Isso porque as acusações são ambíguas e sempre responsabilizam a mulher pelos problemas. Ela vai se tornando cada vez mais envergonhada, se desestrutura e não consegue reagir. Quando a espiral alcança o estágio da violência física pode ser tarde demais. Qual é a hora de cortar? Como denunciar? De que maneira interferir?

O novo livro da escritora, roteirista e artista plástica Patrícia Melo, 57 anos, traz todas essas questões nas personagens que retrata. É uma ficção baseada em extensa pesquisa de casos reais. Todas aquelas situações, de fato, existem. São circunstâncias que atravessam diferentes classes sociais, raças e crenças. A autora demonstra que o silêncio é cúmplice na morte dessas mulheres e a omissão do Estado é conivente com a sociedade misógina que permite um feminicídio a cada oito horas (dados do Atlas da Violência 2019). São milhares. São, portanto, "Mulheres empilhadas", título da obra editada pela Leya. Trata-se de um mergulho no mundo do feminicídio, que chega aos tribunais, aprofunda nos agressores, mostra a complexidade das violências nas famílias, vê negligências e lança mão do humor em alguns momentos.

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Com 25 anos de carreira, Patrícia Melo é uma das mais premiadas autoras da literatura brasileira contemporânea. Escreveu 11 livros publicados em diversos países. Ganhou o prêmio Jabuti de melhor romance por "Inferno" (Companhia das Letras) e o LIBeratourpreis por "Ladrão de Cadáveres" (Rocco), entre outros. Vive na Suíça com o marido, tem duas filhas e dois netos. "Mulheres empilhadas" é seu primeiro livro em que o protagonista é mulher.  Os lançamentos acontecem no Rio de Janeiro nesta quarta (6), em Belo Horizonte na quinta (7), em Salvador na terça (12) e em São Paulo na quarta (13). Nesta entrevista, Patrícia conta como a pesquisa, que a levou a conhecer o feminicídio profundamente, a tocou para a vida inteira.

Universa – Por que você escolheu o feminicídio para seu novo romance?
Patrícia Melo – Quase a total maioria dos meus protagonistas é homem. Acho que essa matança de mulheres é a questão mais urgente que ocorre hoje no Brasil. Somos o quinto país no ranking dos países feminicidas. Como abordar essa temática dentro da literatura? Na época, o Brasil tinha 10 mil casos de feminicídio nos tribunais aguardando julgamento, que são muito dolorosos para as famílias. O sistema judiciário resolveu fazer esses mutirões nos estados para acelerar os processos. Vi duas coisas que me interessaram: o Acre tinha o mais alto índice de casos de feminicídio e era o mais eficiente entre os estados que aderiram aos mutirões. E aí começou.

Quanto tempo você levou entre a pesquisa e a conclusão do livro?
Foi uma vertigem. Desde "Acqua Toffana" (Rocco), minha estreia literária, não tive mais esse surto que tive para escrever "Mulheres empilhadas". Fiz tudo junto. Fui escrevendo e pesquisando. Durou um ano. Fiquei muito tomada, muito sensibilizada. Quando acabei de escrever o romance, o sentimento mais mobilizador para mim foi de impotência.

Como você deu vazão a isso?
Tenho um hobby que é a pintura. Quando acabei o livro, comecei a fazer umas coisas assim: com tela, tesoura, linha, faca, umas coisas que eu nunca tinha feito. Um dia o Johnny [o maestro brasileiro John Neschling], meu marido, disse: nossa, você não conseguiu consumir toda a sua fúria no livro, né? É verdade. Fiquei muito sensibilizada, muito tomada e ao mesmo tempo eu tinha uma sensação muito grande de impotência. Tinha uma fúria ali.

Que precisava sair…
É. Não gastei toda a minha fúria. Eu acho que a estrutura tripartida do livro também tinha uma função de ter uma ponta dessa narrativa que desse para mim a sensação de justiça. Que é transformar a minha protagonista em uma matadora. Ela vai lá, "vamos acertar as contas aqui: isso é pelo estupro, isso é pela surra, isso é pela obstaculização da minha emancipação", ela vai cobrando isso desses homens. Mas isso eu tinha que fazer em um plano onírico, senão, simplesmente eu dava a essa protagonista feminina um ethos masculino. A violência como um caráter identitário, não é um elemento identificador da mulher, é do homem. Então, eu precisei desse acerto de contas. E mesmo que ele tenha se realizado num plano onírico, com humor, e quando ela decide ir atras desses homens, ela se junta a um personagem lendário do Amazonas, as Icamiabas. São as amazonas, guerreiras que extirpavam o seio esquerdo para ajustar o arco, a flecha, as armas com as quais acertavam as contas contra homens violentos. Nessa coisa onírica ela se junta a essas mulheres para a vingança.

O título "Mulheres empilhadas" se refere à impunidade?
À impunidade mas também à normatização. Tudo o que é uma pilha é algo que você não dá valor. É nesse sentido. Durante a feitura do livro, a sensação é que eu estava o tempo todo lendo a mesma história, aquele monte de corpos, essas mulheres morrendo à toa. Foi uma imagem de uma sensação que descreve o desperdício de vida. Uma vida desperdiçada, uma morte naturalizada. Uma certa aceitação da realidade que me choca. Uma coisa é você saber, ler no jornal. Todos os dias a gente tem essa experiência. Faz parte da nossa observação diária. A gente não consegue não ler, toda mulher não consegue não ler. Você sempre é atraída para esse tipo de notícia, que é muito chocante. Uma coisa é você ter essa percepção de observadora da realidade. Outra coisa é você entrar nesse universo. É uma luta entre a sua indignação e a sensação de impotência. Para mim foi muito isso. O título vem dessa abundância de corpos e vidas desperdiçadas.

Como você fazia no dia a dia? Era preciso desligar em algum momento?
A própria literatura teve esse papel antídoto. Esse meio onírico da estrutura do livro, com um acerto de contas entre a personagem e essa realidade trágica, de uma certa forma tem um caráter curativo. E eu, por um processo simbiótico, também. É onde eu uso o humor. Foi uma maneira de dar contrapeso a essa realidade dura. Sempre tinha esse capitulo onírico em que eu me reabastecia de força e de coragem para ir na pedreira da violência.

Um olhar interessante que o livro traz é a visão de uma filha do feminicídio. Ela junta diferentes elementos da realidade de quem é testemunha da violência doméstica. 
É, essa criança já é desassistida pelo Estado enquanto ainda tem a mãe. Ela é duplamente desassistida pelo Estado. Depois, ainda é privada da mãe. Não tem como você não culpabilizar também o Estado pelo assassinato dessa mulher. Porque o Estado também se omite, não protege essa mulher, é negligente para julgar esse homem, às vezes o libera, não acolhe essa mulher quando ela pede socorro, é tudo muito incipiente. Essa criança é criada por uma avó que é uma dor pulsante. Essa não é apenas uma tragédia de um momento de sua vida. É a tragédia de uma geração. Quando você mata a mãe, é uma tragédia que dura uma geração e vai se refletir na geração seguinte. Não é uma tragédia superável. Atomiza a sua identidade como filha também. Porque é a sua mãe que foi morta. Muitas vezes quando você ainda é uma garota ou uma bebê. E foi morta por alguém que deveria te proteger, seu pai. Então isso é muito desestruturador.

E ela cresce com essa tragédia e esse silêncio, como muitas crianças filhas do feminicídio, não é? 
O que eu acho interessante é como o feminicidio, em toda a sua complexidade, é cercado pela questão do silencio. A família vítima não consegue elaborar essa morte, por um mecanismo de proteção, ou por um luto que se prolonga ao longo da vida. Entao ela se alimenta desse silêncio, se protege com esse silêncio. Da mesma forma que essa mulher que morreu também vivia essa violência domesticamente, sem pedir socorro. Também foi vítima desse silêncio. É um silêncio terrível que quando sai do corpo da vítima envolve toda a família.

A protagonista questiona até que ponto é culpada das agressões, se deve perdoar. É um retrato da realidade?
Uma das questões mais complicadas da violência é que é desestruturante. Antes de morrer, essa mulher desmonta. Esse desmonte não permite que ela consiga escapar muitas vezes. Porque ela está desmontada. Não está com os pés no chão sacando o que está acontecendo, não está vendo direito,  ja está com a identidade quebrada. Sente-se culpada, impotente, ruim. Acredita que é uma mãe ruim, uma esposa de merda, que é uma "bosta albina" [como no livro], burra. No liquidificador da violência, a mulher é atomizada, tem a personalidade picotada.

E o agressor parece saber disso?
O agressor não apenas sabe. Ele se diverte com isso. É um manipulador, um assassinato recreacional. É um processo longo, demora, acontece em fogo brando, e há alguém ali que está se divertindo o tempo todo. É ele. Ele se diverte enquanto dá um tapa, uma surra, se sente o super heroi, muito poderoso, se sente ganhando o jogo. Ele se diverte por muito tempo até a violência letal, o que também para ele é diversão, muitas vezes acontece junto com o orgasmo. Mata porque ele despreza a mulher, é misógino, não aceita a emancipação dessa mulher, não aceita uma relação de isonomia. Tudo isso pode estar lá socado no armário, mas no momento do conflito, virá à tona e será o fim dessa mulher.

Como o Estado percebe essa violência no Brasil?
Tem uma leniência no trato com a violência doméstica. É como se a violência doméstica não fosse um assunto do Estado. Mas é. É uma violação de direitos humanos. Como você trata uma violação de direitos humanos? Por que no âmbito do relacionamento entre homem e mulher o Estado se isenta de responsabilidade? Para mim, ele é duplamente responsável. Primeiro porque não ampara essa mulher e segundo porque é negligente na hora de julgar esse assassino.

Toda vitima de feminicidio foi vitima de violência doméstica?
Toda. É um continum de violência. O feminicídio é a ponta do iceberg que é a violência contra a mulher. Essa mulher passou por todas as fases. Geralmente, essa violência acontece em etapas e a gente só vê o elo final, que é a letalidade. Todo o resto acontece submerso. Mas toda a mulher que é assassinada sofre um continum de violência lento, que começa a crescer, vai numa espiral de potência. Começa com uma violência verbal. Às vezes até com ciúme, controle da roupa, tentativa de desconstruir a mulher verbalmente. Depois começa a violência física, que também cresce. Vai numa espiral. É previsível e evitável. Isso é terrível. Como uma coisa que é previsível e que é evitável acontece nessa escala? Como a sociedade pode conviver com isso?

É possível que com a publicação do livro você escute muitas histórias reais de violência e relacionamentos abusivos. Como vai lidar com isso?
Acho que será um movimento natural, quase uma extensão da leitura, vai fazer parte da vida do livro, vai fazer parte da minha vida. Uma atitude de resistência, como o livro, não pode ser pontual. Não pode acabar aqui. Esse livro me deu consciência de uma realidade que me acompanha, me perturba. Acho que vou continuar sendo atuante, sendo política. Me vejo inserida nesse debate agora. Estou na luta. E não vou sair da luta enquanto eu estiver viva.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Maria Carolina Trevisan, 40, é jornalista especializada na cobertura de direitos humanos, políticas públicas sociais e democracia. Foi repórter especial da Revista Brasileiros, colaborou para IstoÉ, Época, Folha de S. Paulo, Estadão, Trip e Marie Claire. Trabalhou em regiões de extrema pobreza por quase 10 anos e estuda desigualdades raciais há oito anos. Coordena a área de comunicação do projeto Memória Massacre Carandiru e é pesquisadora da Associação Nacional de Direitos Humanos, Pesquisa e Pós Graduação. É coordenadora de projetos da Andi - Comunicação e Direitos. Em 2015, recebeu o diploma de Jornalista Amiga da Criança por sua trajetória com os direitos da infância.

Sobre o blog

Reflexões e análises sobre questões ligadas aos direitos humanos: violência, polícia, prisão, acesso a direitos, desigualdades, violações, racismo, sistema de Justiça e política.

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