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Maria Carolina Trevisan

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O que significa o beijo lésbico da primeira prefeita eleita de Bogotá?

Maria Carolina Trevisan

29/10/2019 13h10

A prefeita eleita de Bogotá, Claudia López, celebra a vitória com um beijo em sua companheira, Angélica Lozano. Foto: Reprodução

Pela primeira vez na história, uma mulher foi eleita prefeita de Bogotá, capital da Colômbia. Claudia López, 49 anos, da coalisão entre Partido Alianza Verde e Polo Democrático Alternativo, é também assumidamente lésbica, companheira da senadora Angélica Lozano. "Obrigada, Angélica, por estar sempre aqui, por ser o amor da minha vida e por me fazer feliz a cada dia", declarou Claudia, em seu primeiro comunicado como prefeita eleita da capital colombiana, no domingo (27).  Ela superou em quase 3 pontos Carlos Fernando Galán, do Partido Cambio Radical, seu principal oponente e que se coloca à direita do espectro político. 

Assim que soube do resultado das urnas, Claudia se reuniu com familiares, equipe e apoiadores. O primeiro registro da comemoração é um longo beijo entre Claudia e Angélica. A imagem viralizou e provocou reações de apoio e de rechaço à expressão de amor das duas.

"Entendo a agitação, a controvérsia, a discussão. É parte da mudança que está ocorrendo na nossa sociedade. Eu não pretendia desafiar ninguém. [O beijo] é algo natural, qualquer um que tivesse ganhado, tenho plena certeza, se [o candidato] Carlos Fernando tivesse ganhado, teria beijado com amor sua esposa, sem dúvida. E, seguramente, Miguel [Uribe, outro candidato] também. Do ponto de vista íntimo, familiar, foi uma vitória extraordinária e como não compartilhá-la com minha mãe e com o amor da minha vida, que tem sido o pilar da minha vida e será sempre?", disse nesta segunda (28), em uma entrevista para uma rádio local. 

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Fato é que Claudia foi eleita com 1,1 milhão de votos, 35,21% do total, em uma eleição com baixa abstenção. Ao contrário das tendências polarizadas que vêm fagocitando países da América Latina, a campanha de Claudia López pregou a união. Com o mote "inspirar, unir e ganhar", o Partido Verde derrotou legendas tradicionais encabeçadas por homens brancos e heteros. "Bogotá votou para que derrotemos, superemos e desaprendamos o machismo, o classismo, o racismo, a homofobia e a xenofobia. Que não haja dúvidas: Bogotá votou porque a mudança e a igualdade são imparáveis", disse, em seu discurso de vitória.

Claudia tem origem humilde, é filha de María del Carmen Hernandez, uma professora (muito presente durante toda a campanha), e revelou um trauma perene: a perda de sua irmã, aos três anos, em um acidente. Ela tinha quatro. Engajou-se no movimento da Sétima Papeleta, em 1990, quando estudantes de diversas universidades apoiaram a convocatória de uma Assembleia Constituinte, que originou a Constituição de 1991.

É graduada em Finanças, Governo e Relações Internacionais pela Universidade Externado de Colombia, tem mestrado em Administração Pública e Política Urbana pela Universidade  Columbia, em Nova York, e doutorado em Ciência Política pela Universidade Northwestern, de Chicago. Curou-se de um câncer e, em 2014, foi eleita senadora com 81 mil votos. Sua história de superação atraiu a empatia da população colombiana.

A prefeita eleita de Bogotá também se tornou relevante no cenário político colombiano por sua bandeira contra a corrupção. Na academia, denunciou o escândalo da Parapolítica, que tratava da relação de grupos paramilitares com congressistas. No Senado, liderou uma consulta pública sobre a Lei Anticorrupção, que buscava endurecer as leis sobre esse crime. Conseguiu 11,6 milhões de votos, a maioria a favor do "sim", mas não alcançou o número suficiente para transformar a demanda em lei. Em 2018, foi candidata à vice-presidência do país junto a Sergio Fajardo. A chapa foi considerada uma terceira via entre as forças polarizadoras daquele ano, obtendo 23,74% dos votos.

Agora, celebra a vitória na maior votação da história de Bogotá. "Nos unimos, ganhamos, fizemos história." Sua conquista mostra também a crise dos partidos políticos tradicionais, assim como em outras partes da América Latina. A polarização parece não mais preencher o vazio que sentem os eleitores e a exaltação do ódio começa a se mostrar um fracasso sob todos os pontos de vista. Claudia ganhou defendendo políticas públicas de gênero, o enfrentamento da violência contra a mulher, a importância da juventude, a justiça social, o acesso à educação e à saúde, a liberdade dos movimentos sociais e a garantia de direitos, inclusive direitos trabalhistas.

Juntou combate à corrupção com esperança. Montou uma central de desmonte de fake news, colabora e exalta o trabalho da imprensa. E foi cordial com seus oponentes em toda a campanha. "Será um governo para todos, não somente para aqueles que confiaram na gente", declarou. Seu posicionamento é o oposto do comportamento demonstrado pelo presidente Jair Bolsonaro (PSL), por exemplo.

Tendência?

Claudia López celebra vitória em Bogotá. Foto: Divulgação

A eleição de Claudia López em Bogotá –e a rejeição a uma política endurecida e conservadora– não é um fenômeno isolado na América Latina atualmente. A Argentina elegeu Alberto Ángel Fernández e Cristina Kirchner, do Partido Justicialista, em clara demonstração de que a política econômica neoliberal de direita de Mauricio Macri não agradou. No Uruguai, país que perseguiu e explorou sua população negra durante a escravidão e ditadura, Gloria Rodríguez é a primeira mulher negra a ocupar um cargo no Senado. No Chile, uma convulsão social mostra grande descontentamento popular pelas políticas que privatizaram serviços e agravaram a desigualdade no país.

O Brasil se prepara para iniciar 2020 com número recorde de candidatos negros e mulheres para as eleições municipais, um prenúncio do que pode ser a disputa em 2022. A vitória de Erica Malunguinho (PSOL-SP) para a Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, uma mulher trans negra, importante liderança social, é um forte indicador dessa tendência.

Ao que parece, quanto mais se ameaça o acesso a direitos, quanto mais se endurece a política econômica e se agrava a violência de Estado, mais potência ganha a exaltação da igualdade, do amor, da paz e do diálogo. Isso move o eleitorado. Como disse Claudia López, a ocupação dos espaços de poder pelas mulheres é imparável. Não tem volta atrás.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Maria Carolina Trevisan, 40, é jornalista especializada na cobertura de direitos humanos, políticas públicas sociais e democracia. Foi repórter especial da Revista Brasileiros, colaborou para IstoÉ, Época, Folha de S. Paulo, Estadão, Trip e Marie Claire. Trabalhou em regiões de extrema pobreza por quase 10 anos e estuda desigualdades raciais há oito anos. Coordena a área de comunicação do projeto Memória Massacre Carandiru e é pesquisadora da Associação Nacional de Direitos Humanos, Pesquisa e Pós Graduação. É coordenadora de projetos da Andi - Comunicação e Direitos. Em 2015, recebeu o diploma de Jornalista Amiga da Criança por sua trajetória com os direitos da infância.

Sobre o blog

Reflexões e análises sobre questões ligadas aos direitos humanos: violência, polícia, prisão, acesso a direitos, desigualdades, violações, racismo, sistema de Justiça e política.

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