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Maria Carolina Trevisan

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A história da menina que morreu abraçada ao pai tentando chegar aos EUA

Maria Carolina Trevisan

26/06/2019 11h15

Mexicanos brincam em praia de Tijuana, que faz fronteira com San Diego, dos EUA; ao fundo, cerca divide as duas cidades – Foto: Lalo de Almeida/Folhapress

Não importa o que buscam. Ou do que fogem. Imigrantes que empreendem a dura jornada, principalmente a partir de países centro-americanos em direção aos Estados Unidos, estão sujeitos à própria sorte, à solidariedade de quem encontram, expostos ao abandono, à violência e a incontáveis outros os perigos. É gente cuja esperança se esgotou. Ninguém se joga em uma empreitada de morte e desalento se não estiver em profundo desespero. Ou profundo medo. Ou miséria. Ou tudo isso junto.

Nesta semana, uma foto condensou o que é a crise migratória centro-americana. E chamou a atenção do mundo. Na imagem: um pai de 25 anos abraçado à filha, de 1 ano e 11 meses. Ambos sem vida. Com o rosto submerso no rio. Dava para ver a mãozinha direita da pequena Valeria enlaçada no pescoço do pai, Óscar Ramirez, que levava a menina dentro de sua camiseta preta. Óscar não largou a filha.

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É o retrato da crueldade diante de uma crise humanitária. E da omissão. E do descaso. O rio Bravo*, onde pai e filha se afogaram, é como um cemitério, de tantos cadáveres que surgem em seu leito. A morte não é, portanto, uma situação nova, desconhecida. Daí a enorme indiferença. Os migrantes são invisíveis, como mostra o livro reportagem "Os migrantes que não importam" (Sur+ adiciones), do jornalista salvadorenho Óscar Martinez, editor do jornal El Faro. Martinez percorreu o caminho entre El Salvador e Estados Unidos acompanhando migrantes. Mostra que nessa travessia é preciso conhecer o rio, suas correntes e profundidades e saber sobre as temporadas de chuva. Fora disso, há poucas opções: ou morre-se afogado ou  paga-se a um coiote, correndo outros mil riscos, e sem garantia de nada.

A tragédia que vitimou os migrantes de El Salvador, aconteceu na fronteira entre Estados Unidos e México, em um dos 1.455 km do rio Bravo, que separa a cidade de Matamoros, em Tamaulipas, de Brownsville, no Texas. A mãe, Vanessa, de 21 anos, viu quando tudo aconteceu. Contou a jornalistas locais que, cansada, sem vislumbrar ser aceita como refugiada, sobrevivendo em uma cidade desmantelada pelo processo de migração, a família decidiu atravessar o rio. Óscar foi primeiro com a menina. Chegou do outro lado e ia voltando para buscar a esposa quando viu a filha entrar na água atrás dele. Correu até a menina, conseguiu pegá-la mas caiu em uma correnteza do rio. Os gritos da mãe chamaram outras pessoas, que alertaram as autoridades de segurança. Os dois foram encontrados apenas no dia seguinte, a 500 metros de onde empreenderam a travessia. Morreram abraçados.

Como um atestado da indiferença, o rio Bravo não pertence a nenhum dos dois países. Um convênio firmado entre México e Estados Unidos permite o compartilhamento de suas águas.

Ameaças de Trump

Nas últimas semanas, o governo do México recrudesceu as políticas migratórias em reação a ameaças do governo Trump de taxar produtos mexicanos caso o país não diminua o fluxo nas fronteiras. Depois das medidas, cerca de 800 pessoas serão deportadas. Por outro lado, estimativas do governo mexicano apontam que 2019 pode bater recorde de migração, com cerca de 800 mil migrantes no país. As deportações se multiplicaram. Foram 15.654 deportações em maio deste ano. Em 2018, o mesmo mês registrou 10.350.

Diz o presidente dos Estados Unidos, em sua conta no Twitter: "Na próxima semana, o ICE [Serviço de Imigração e Controle Alfandegário] iniciará o processo de remoção dos milhões de imigrantes ilegais que chegaram ilicitamente aos Estados Unidos. Eles serão removidos mais rápido do que entraram. O México, usando suas fortes leis de imigração, está fazendo um trabalho muito bom de parar as pessoas ……."

O governo mexicano reagiu a críticas de que estaria sendo pressionado por Trump. "A Secretaria de Relações Exteriores e a Secretaria de Governo reiteram que o México atua de forma soberana e independente ao implementar sua nova política migratória — uma que põe ao centro a proteção dos direitos humanos e a expansão de um desenvolvimento econômico e igualitário na região", relatou, em comunicado. As evidências, no entanto, não demonstram esse acolhimento. 

O presidente de El Salvador, Nayib Bukele, prometeu ajudar na repatriação dos corpos. A família espera em Matamoros. "Nos unimos à dor desta perda irreparável. Nenhum salvadorenho deveria ver-se na necessidade de deixar seu país por falta de oportunidades." Até esta terça (25), no entanto, a família continuava esperando para poder se despedir de Óscar e Valeria.

Enquanto isso, em terras norte-americanas, denúncias fizeram com que o chefe de imigração, John Sanders, principal funcionário do governo dos Estados Unidos encarregado do controle de fronteiras, se demitisse do cargo nesta terça-feira (25), depois de vir à tona os maus-tratos a crianças imigrantes apreendidas na divisa com o México. Os maus-tratos incluíam falta de banho, pasta de dentes e sabão, e a impossibilidade de lavar roupas. Bebês, crianças e adolescentes estavam doentes em um ambiente superlotado. Há relatos de que o aperto era tanto, que havia gente em pé sobre os vasos sanitários para encontrar espaço.  

Jornalistas que acompanham as caravanas migratórias relatam que todos os dias alguém morre tentando atravessar o rio Bravo. Moradores afirmam que corpos aparecem inchados nas margens do rio todas as semanas. O que aconteceu ali no domingo é mais um horror que se junta a uma série de tristezas sobrepostas de gente que não tem lugar no mundo. Mas que é gente. O que sobra aos migrantes é o limbo.

*Optei por usar o nome do rio em espanhol.

Observação: como a imagem chocante já correu o mundo e está publicada em outra reportagem do UOL, escolhi  não publicá-la novamente. Creio que ela já cumpriu seu papel: chamar atenção para o problema da migração, comover quem não enxerga esse drama. O texto é já bastante duro e triste. Por isso decidimos publicar o registro do fotógrafo da Folha Lalo de Almeida, na premiada série de reportagens "Um mundo de muros", para mostrar que há muitas crianças nesse contexto. Na foto, a fronteira de Tijuana e o muro que separa esperanças de vida ou de morte.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Maria Carolina Trevisan, 40, é jornalista especializada na cobertura de direitos humanos, políticas públicas sociais e democracia. Foi repórter especial da Revista Brasileiros, colaborou para IstoÉ, Época, Folha de S. Paulo, Estadão, Trip e Marie Claire. Trabalhou em regiões de extrema pobreza por quase 10 anos e estuda desigualdades raciais há oito anos. Coordena a área de comunicação do projeto Memória Massacre Carandiru e é pesquisadora da Associação Nacional de Direitos Humanos, Pesquisa e Pós Graduação. É coordenadora de projetos da Andi - Comunicação e Direitos. Em 2015, recebeu o diploma de Jornalista Amiga da Criança por sua trajetória com os direitos da infância.

Sobre o blog

Reflexões e análises sobre questões ligadas aos direitos humanos: violência, polícia, prisão, acesso a direitos, desigualdades, violações, racismo, sistema de Justiça e política.

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