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Maria Carolina Trevisan

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Conduzindo Bolsonaro, Collor e Kirchner: motoristas que sacudiram o poder

Maria Carolina Trevisan

11/12/2018 05h48

A ex-presidente Cristina Kirchner – Foto:
Marcos Brindicci/Reuters

Jornalistas que investigam o poder sabem que motoristas de autoridades são peças-chave e fontes importantes de informação. São guardiões dos segredos que escutam, das conversas ao telefone, conhecem as pessoas, os lugares e os hábitos de quem frequenta o poder. Discretos, chamam pouco a atenção. Por saberem tanto, estão vulneráveis à corrupção. Podem se sentir afrontados por participar de esquemas de corrupção, como justificou o motorista Eriberto França, que trabalhava para a principal assessora do ex-presidente e senador Fernando Collor de Mello (PTC-AL). Suas revelações sobre o esquema de PC Farias ao jornalista Mino Pedrosa em 1992, para a revista IstoÉ, levaram a apurações que culminaram com o impeachment de Collor. França esperava mais reconhecimento. Foi logo esquecido.

O caso de Fabrício José Carlos de Queiroz, ex-motorista do deputado federal e senador eleito Flavio Bolsonaro (PSL-RJ) é diferente: Queiroz aparentemente goza de proximidade e confiança da família Bolsonaro. Não há ainda nada provado sobre a origem ilícita do dinheiro, mas os indícios são fortes. Os valores são "incompatíveis com o patrimônio, a atividade econômica ou ocupação profissional e a capacidade financeira", segundo o Coaf, que considerou que existiram "movimentações atípicas". O motorista também recebeu repasses em dinheiro vivo que superam os R$ 80 mil e enviou cheque à esposa do presidente eleito, Michelle, no valor de R$ 24 mil. A denúncia foi publicada pelos jornalistas Fabio Serapião e Constança Rezende, do Estadão.

O presidente eleito, Jair Bolsonaro, disse que o pagamento a Michelle seria a devolução de um empréstimo, e que ele "errou" ao não declarar o dinheiro supostamente emprestado. "Se eu errei, arco com minha responsabilidade sem problema nenhum", afirmou em coletiva de imprensa no sábado, 8. Disse ter usado a conta da esposa por "questão de mobilidade". Segundo Bolsonaro, seu filho está "muito abalado" e apenas o motorista Queiroz poderia explicar a origem do dinheiro. A investigação faz parte da Operação Lava Jato. Foi o primeiro abalo forte no governo Bolsonaro depois das eleições. Uma das bandeiras do presidente eleito na campanha foi justamente o combate à corrupção.

Mas nada se compara à trama fantástica que pode levar a julgamento e a prisão a ex-presidente da Argentina, Cristina Fernández Kirchner. Tudo começa em janeiro de 2018, quando Diego Cabot, jornalista argentino do La Nación, recebe uma caixa com oito cadernos. Os cadernos continham informações detalhadíssimas sobre como funcionava o esquema de propinas supostamente operado pelo governo dos Kirchners – que chega até a envolver a família do atual presidente Maurício Macri. Na caixa havia também vídeos e algumas fotos pouco nítidas.

Os "cuadernos de las coimas" (em português "os cadernos de propina") pertencem a Oscar Centeno, motorista de Roberto Baratta, braço direito do ex-ministro de Obras, Julio de Vido. Pelos apontamentos foi possível reconstituir o caminho das propinas: partiam dos ex-presidentes Kirchner, passavam por Baratta e De Vido, que recolhiam os valores com as empreiteiras. Os destinos finais eram a Quinta dos Olivos, residência oficial do presidente da Argentina em Buenos Aires, a chefia de Gabinete ou os apartamentos da família dos ex-presidentes em Juncal, província de Santa Fé, e no Uruguai, de acordo com a reportagem.

Centeno detalhou também o que havia nas bolsas e malas que transportava: pacotes com milhares de dólares. Em um dos registros, ele descreve ter contado num único dia US$ 900 mil em dinheiro vivo. O motorista sabe quem pegou e quem recebeu os valores. Registrou até as características físicas de quem teve contato com o esquema. Foram 10 anos de anotações. Cristina Kirchner negou qualquer envolvimento e disse em seu Twitter que não faria comentários sobre "motoristas arrependidos".

Os três casos têm em comum a figura do motorista, a presença de presidentes de Estado e a revelação por meio da imprensa.

A investigação jornalística

Detalhe da reportagem sobre o motorista do governo Kirchner e suas anotações sobre a rede de corrupção

Diego Cabot, 48 anos, o jornalista do La Nación, começou então a checar a veracidade das informações que estavam naquele caderno. Levou um tempo para compreender a quantidade de evidências que tinha em mãos. "Era a solidificação de uma estrutura mental formada depois de anos escutando centenas de lendas urbanas sobre as bolsas de dinheiro do kirchnerismo", contou Cabot quando publicou a denúncia.

Ele montou uma equipe de investigação com dois de seus alunos e começou a destrinchar cada um dos cadernos. "Foram horas de madrugada para ordenar os registros, debates eternos e surpresas com os nomes que apareciam", contou. Os achados deixavam evidente a impunidade com que esses personagens se moviam.

Mas seria muito arriscado publicar os cadernos e depois escutar empresários e funcionários negando cada um dos registros. Optaram, então, por um trabalho minucioso, sem pressa, em sigilo e silêncio: a reportagem só seria publicada quando as provas fossem robustas o suficiente para não deixar que os envolvidos escapassem da justiça. Os jornalistas percorreram cada um dos lugares listados pelo motorista, os quartos de hotéis, os andares mais altos dos prédios de Porto Madero, onde se concentra boa parte das empresas e o Ministério do Planejamento, e até encontraram os recibos de compra das bolsas que carregavam o dinheiro.

Quando esse tabuleiro estava preenchido, passaram a entrevistar as pessoas envolvidas nas anotações. "Nos indignamos", disse Cabot. Todos negaram. Mesmo ao saber dos cadernos. Era preciso dar um passo além.

O tabuleiro de xadrez

Acontece que com uma investigação tão importante é preciso planejar e se precaver para que a apuração não se desfaça como éter, com as negativas dos citados. A equipe começou a pensar no que aconteceria ao publicar tamanha história. O motorista poderia negar todos os apontamentos. Qual seria a melhor estratégia para publicar a reportagem sem que ela perdesse força?

Com toda a apuração feita, os jornalistas decidiram que a melhor estratégia seria envolver a Justiça. Trataram de compartilhar as evidências com um promotor para que o sistema de Justiça pudesse investigar com mais ferramentas e meios mais adequados esses indícios. Com o que tinham e com o que haviam checado, não era possível que promotores não se interessassem em desvendar o emaranhado de fios dos porões da corrupção.

"Decidimos não publicar nada até que a Justiça movesse suas peças", contou Cabot ao programa La Nación Más. No dia 10 de abril de 2018, Cabot se encontrou, então, com um promotor. Mostrou os registros. Foi o tempo de esperar a movimentação da justiça. Na madrugada de 1 de agosto, recebeu o aviso de que o motorista seria detido, junto com uma dezena de outros investigados e que medidas seriam executadas. Era o momento ideal de mostrar a investigação jornalística. A reportagem foi publicada pela manhã.

Consequências

Foto: Reprodução

Essa negociação talvez não fosse tão frutífera se a Argentina não tivesse adotado, há cerca de quatro meses, a "figura do arrependido", um tipo de delação premiada. Com as provas, esse instituto permitiu que os envolvidos no escândalo dos cadernos de propina colaborassem para que os investigadores pudessem adentrar as entranhas da corrupção na Argentina em troca de diminuir suas condenações, ou de mudança para regime domiciliar. Mais ou menos como acontece com a Lava Jato no Brasil.

Há ainda muito o que avançar. A etapa mais recente das investigações coloca na berlinda a ex-presidente Cristina Kirchner, que pode prestar depoimento novamente, em breve. Na primeira vez que falou, Cristina pediu que se intimasse o atual presidente argentino, Mauricio Macri. Seu pai, Franco, e seu irmão Gianfranco estariam envolvidos com esquemas de corrupção. Nos próximos dias, ex-servidores do governo Kirchner voltarão a falar ao juiz Claudio Bonadio.

A corrupção sistêmica habita a escuridão do poder. Tem tentáculos subterrâneos, pouco visíveis na superfície, e que estão entranhados de modo muito imbricado, camada sobre camada. Não bastam promessas de campanha ou mudanças de governo para acabar com ela. O processo é mais lento e mais profundo. Em 2019, a Argentina terá novas eleições. Períodos de campanha são mais suscetíveis à corrupção: barganha promessas em troca de financiamento. Saberemos o impacto desse processo.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Maria Carolina Trevisan, 40, é jornalista especializada na cobertura de direitos humanos, políticas públicas sociais e democracia. Foi repórter especial da Revista Brasileiros, colaborou para IstoÉ, Época, Folha de S. Paulo, Estadão, Trip e Marie Claire. Trabalhou em regiões de extrema pobreza por quase 10 anos e estuda desigualdades raciais há oito anos. Coordena a área de comunicação do projeto Memória Massacre Carandiru e é pesquisadora da Associação Nacional de Direitos Humanos, Pesquisa e Pós Graduação. É coordenadora de projetos da Andi - Comunicação e Direitos. Em 2015, recebeu o diploma de Jornalista Amiga da Criança por sua trajetória com os direitos da infância.

Sobre o blog

Reflexões e análises sobre questões ligadas aos direitos humanos: violência, polícia, prisão, acesso a direitos, desigualdades, violações, racismo, sistema de Justiça e política.

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