Maria Carolina Trevisan

Futebol e racismo: chamado de "macaco", Aranha não se arrepende de denúncia

Maria Carolina Trevisan

14/07/2018 13h07

Junho de 1950. Maracanã lotado para a final da Copa do Mundo entre Brasil e Uruguai. A Seleção Brasileira precisava de um empate para o bicampeonato mundial. A partida estava em 1 a 1. Até que o ponta uruguaio Alcides Ghiggia recebeu a bola, fez que ia lançar, e chutou no canto esquerdo do gol. O goleiro negro, Moacyr Barbosa, chegou atrasado na bola, numa das poucas falhas de sua brilhante carreira. Bastou para se tornar o culpado da derrota – e foi xingado de macaco pela torcida uruguaia.

Moacyr Barbosa, goleiro do Brasil na disputa contra o Uruguai – Foto: Arquivo Folha Imagem

 

Julho de 2018. A Seleção Brasileira tenta o hexacampeonato mundial na Rússia. Em disputa contra a Bélgica nas quartas de final, aos 13 minutos de jogo, o volante Fernando Luiz Rosa, conhecido como Fernandinho, esbarrou na bola com o ombro, despistou o goleiro, Alisson, e fez um gol contra, abrindo o placar contra o Brasil. O jogo terminou em 2 x 1 e tirou a seleção do mundial. Foi o suficiente para que os próprios brasileiros culpassem Fernandinho e repetissem a ofensa racista desumana, chamando o jogador negro de “macaco”.

Fernandinho disputa bola com jogador da Bélgica na Copa da Rússia – Foto: Eduardo Verdugo/AP Photo

Os 68 anos que separam os dois episódios demonstram que o racismo persiste. O que mudou nesse período foi a desnaturalização desses atos. Hoje, não é mais aceito socialmente que alguém chame outra pessoa de “macaco”. Há uma reação da sociedade, da vítima e também um aparato de judicial que pode ser acionado. No caso de Fernandinho, sua família fez declarações de repúdio e o técnico, Tite, e os jogadores da seleção apoiaram o volante.

Racismo e futebol sempre andaram juntos no Brasil. Um dos casos mais contundentes de racismo explícito aconteceu com Mário Lúcio Duarte Costa, o Aranha, quando atuava no Santos como goleiro, em agosto de 2014. Ao ser chamado de “macaco” pela torcida do Grêmio, o ato racista tomou as televisões e ganhou o noticiário, em uma das primeiras vezes em que se tratou dessa violência abertamente. Aranha processou o Grêmio e a garota flagrada xingando o goleiro.

Mas sua decisão de não se calar teve um preço: o estigma do jogador xingado se sobrepôs a sua atuação no futebol, o que fez com que fosse alvo de insinuações segundo as quais ele estaria “se aproveitando da situação para se autopromover”. Essa leitura é tão racista quanto o xingamento a que Aranha foi submetido, que o colocou em situação vexatória, invisibilizando sua carreira. Para ele, esse tipo de conclusão é um jeito de manter os negros em posição inferior sempre.

O goleiro Aranha – Foto: Marcelo Justo – 13.abr.2017/Folhapress

Aranha foi destaque de clubes como Ponte Preta, Atlético-MG, Santos, Palmeiras e Joinville. Hoje, com 36 anos, atua no Avaí Futebol Clube, de Florianópolis. Ao olhar em retrospectiva, Aranha faz um balanço sobre as consequências de ter denunciado o racismo. Avalia que o racismo persiste e se adapta. Em uma espiral de crueldade, ele diz que mais o incomoda atualmente é a omissão de quem presencia atos racistas e se cala.

Ele não se arrepende. “Não foi uma coisa boa para a minha carreira, mas como pessoa, como ser humano, como pai de família, eu não poderia deixar passar.”

*

UOL – Como é para você ver o que aconteceu com Fernandinho? O que você sente?
Aranha – Não vejo com nenhuma supresa. Isso é um fato que está enraizado na nossa cultura desde o princípio e às vezes precisa de um motivo para a pessoa externar. Outras vezes as pessoas praticam esse tipo de atitude simplesmente porque apredenram com os pais, com os avós. Como a escravidão ainda é recente no nosso país e depois da abolição foi criado todo um sistema para que mantivesse as coisas no lugar em que eles achavam ideal, então, até hoje é normal que aconteça tudo isso. É ruim, chateia bastante.

Você acha que algo mudou depois que você denunciou o racismo que sofreu?
Felizmente hoje as pessoas não estão mais somente ouvindo como antes. Antes, essas coisas aconteciam e as pessoas ficavam quietas. Agora resolveram retrucar, resolveram cobrar. Estão marcando em cima.

Por que essas ofensas se expressam com mais força no futebol? O esporte seria uma “desculpa” para dar vazão a preconceitos?
Eu costumo dizer que o futebol é um dos maiores psicólogos do homem brasileiro porque toda a frustração, todos os problemas, o nervosismo, o estresse do dia a dia costumam ser despejados no estádio de futebol. Alguns ja chegam alcoolizados, extravasam e aí descarregam os problemas ali. Em alguns casos, o futebol é o único motivo de felicidade que a pessoa tem. Às vezes ela tem tanto problema na vida que a única coisa que tem de bom é o time. E aí se o time perde, a pessoa perde a única coisa que poderia deixar ela feliz. Quando ganha também é uma satisfação máxima. Não se aceita a derrota.

Eu costumo dizer que o futebol é um dos maiores psicólogos do homem brasileiro porque toda a frustração, todos os problemas, o nervosismo, o estresse do dia a dia costumam ser despejados no estádio de futebol.

Como reagem os adolescentes e as crianças negras que estão vendo a Copa e percebem uma situação como essa que você e Fernandinho sofreram?
Ao contrário da minha época, da minha adolescência, da minha juventude, hoje você tem a rede socializara acompanhar a resposta imediata que atitudes racistas estão tendo hoje. Na minha infância e adolescência era normal se calar. A gente sempre levava para esse lado “é assim mesmo”, “deixa para lá”, para poder estar inserido em um contexto, num grupo de amigos, no colégio, no emprego. Às vezes a gente até ria das piadas, dos comentários maldosos. Coisa que hoje não acontece. Então, o jovem negro hoje vai ver a sua internet, compreender que não é legal, que muitas pessoas discordam, que não deve ser feito. Isso tem incomodado bastante gente.

Você foi um dos primeiros jogadores brasileiros a denunciar publicamente o racismo. Que desdobramentos teve o seu caso?
Era praticamente todo o estádio xingando. Uma torcedora ficou em evidência porque foi flagrada. Deu a impressão – tentaram deixar isso a entender – que foi um caso isolado. Não é verdade. Todas as vezes em que voltei lá, isso se repetiu. Não da mesma maneira porque são inteligentes de não errar da mesma forma. usam outras palavras. Mas a manifestação é a mesma. O que tinha que ser feito naquele caso foi feito: ela teve a punição dela, os outros tiveram a punição deles e vida que segue.

Você levou adiante um processo judicial? O que aconteceu? 
Quem fez a denuncia foi o Ministério Público e coube a mim decidir se prosseguia ou não. Eu bati o martelo, bati firme que sim, que eu queria punição, e aí ela ficou sem poder frequentar o estádio por mais de um ano. Só que a punição maior hoje é popular, vem da sociedade, principalmente com a internet. Muita gente está errando na rede social falando o que quer, achando que pode se esconder atrás de um perfil falso, e não é por aí. Porque a partir do momento que você toma uma posição homofóbica, racista, ou de preconceito, a sociedade vai te cobrar. E as coisas mudaram muito, então, como você vai num aniversário, num show, num evento público?O mais importante é que muita gente se posicionou da maneira que eu julgo correta em qualquer tipo de injustiça ou discriminação.

Foi importantíssimo que você tivesse denunciado o racismo naquele momento?
Sim, foi muito importante. Não foi uma coisa boa para a minha carreira, mas como pessoa, como ser humano, como pai de família, eu não poderia deixar passar.

Por que não foi bom para a sua carreira?
Porque a partir daquele momento eu deixei de ser o “goleiro Aranha” e passei a ser o “goleiro que foi xingado de macaco”. Em todos os lugares que eu ia e que até hoje eu vou, num restaurante ou algum lugar, as pessoas logo associam a minha imagem àquela situação. Não associam mais ao futebol, ao jogo, ao clube, é sempre aquilo. Tem muitas pessoas que até hoje pedem para tirar foto comigo e eu sei qual o motivo, não é porque sou o goleiro. Foi porque sofri aquela injúria e foi uma situação bem falada. Tiram foto por isso. Profissionalmente foi muito ruim, eu tive que falar não pra todos os programas esportivos, praticamente.

Desde aquele episódio praticamente não falo com a imprensa esportiva.

Você se arrepende de ter exposto o racismo?
Se eu atendo a imprensa esportiva, de maneira natural, vão tocar no assunto. Se tocar no assunto logo vão me acusar e vão dizer que eu estou usando aquilo para me promover. Então, eu decidi não aceitar convites ou atender a imprensa esportiva, principalmente quando são abordados outros assuntos. Se você é um esportista e deixa de atender a imprensa que cobre esportes, que vai te levantar ou te derrubar, você acaba tendo problemas, desaparecendo.

Na sua vida, quem te ajudou a ter consciência racial?
Desde cedo eu tive a sorte de conhecer muitas pessoas com envolvimento no meio do rap, principalmente nos anos 1990. O rap chegou dizendo para todo mundo, até para aqueles que não sabiam, como eu, o que é racismo, como acontece, e aí você começava a se identificar. Percebia que aquilo que acontecia lá em São Paulo, que acontecia em Minas, no Rio, também acontecia no bairro onde você morava, na sua cidade. Desde cedo comecei a acompanhar esse tipo de música, esse tipo de artista, e depois acabei virando amigo de muitos deles. Então, fui me aprofundando e muito antes de acontecer o que aconteceu na arena do Grêmio, eu já tinha uma base boa, um conteúdo bom sobre o assunto, um posicionamento. Por isso também eu não poderia deixar passar.

O rap chegou dizendo para todo mundo, até para aqueles que não sabiam, como eu, o que é racismo, como acontece, e aí você começava a se identificar.

Você acha que as coisas mudaram depois que o rap passou a abordar a questão?
As pessoas não se calam mais. Costumam me perguntar: aumentaram os casos de racismo? Não, não, aumentaram as denúncias. Agora tudo é racismo? Não, não. Sempre foi. É que antes as pessoas não tomavam atitude, hoje tomam. Não é que hoje não seja mais legal. Nunca foi legal. Nem engraçado. Mas as pessoas toleravam. Era uma coisa diária que sempre aconteceu na minha vida e continua acontecendo. Aqueles que são mais atentos, têm mais sensibilidade, vão perceber. Tem outros que precisam de um caso mais específico e direto para poder se ligar e ver que estão passando por esse tipo de situação: como no caso de andar na rua e a pessoa passar para o outro lado da calçada, segurar a bolsa. Quantas vezes, aqui mesmo no aeroporto, andando de avião no campeonato brasileiro, eu estou sentado no ônibus que faz o trajeto da aeronave até o aeroporto, ônibus cheio, e ninguém senta do meu lado? O que é isso, então?

É  uma dor constante.
Não é fácil, mas felizmente, no meu caso, sou uma pessoa bem preparada e forte para lidar com esse tipo de situação. Então posso falar com tranquilidade e sem receio nenhum de colocar meu emprego em risco porque isso eu já fiz lá atrás.

Como enfrentar o racismo?
É preciso não se calar, não deixar quieto. É necessário se expor, expor o racista, e também aqueles que não cometem mas se calam. Em quantos estádios eu vou jogar e aí tem um ou outro torcedor falando besteira, com uma falta de respeito tremenda e a maioria que está ao lado não se manifesta? E quando dá um problema diz: “mas isso não representa a maioria”. Pois é, mas a maioria estava presente e deixou aquilo acontecer.

A omissão também é uma forma de racismo?
É  o que Martim Luther King falava: o que incomoda é o silêncio dos bons.

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Sobre a autora

Maria Carolina Trevisan, 40, é jornalista especializada na cobertura de direitos humanos, políticas públicas sociais e democracia. Foi repórter especial da Revista Brasileiros, colaborou para IstoÉ, Época, Folha de S. Paulo, Estadão, Trip e Marie Claire. Trabalhou em regiões de extrema pobreza por quase 10 anos e estuda desigualdades raciais há oito anos. Coordena a área de comunicação do projeto Memória Massacre Carandiru e é pesquisadora da Associação Nacional de Direitos Humanos, Pesquisa e Pós Graduação. É coordenadora de projetos da Andi - Comunicação e Direitos. Em 2015, recebeu o diploma de Jornalista Amiga da Criança por sua trajetória com os direitos da infância.

Sobre o blog

Reflexões e análises sobre questões ligadas aos direitos humanos: violência, polícia, prisão, acesso a direitos, desigualdades, violações, racismo, sistema de Justiça e política.

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